quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Piada de mau gosto

Um dos instrumentos mais poderosos a serviço do racismo são as piadinhas. Digo isso porque o riso é um sinal de aceitação, isto é, tendemos a aceitar e naturalizar aquilo que nos faz rir. E é justamente aí que o racismo mostra a sua faceta mais tenebrosa. Afinal de contas, quem nunca ouviu uma pessoa dizer por aí coisas do tipo "branco correndo é atleta, preto correndo é ladrão"; "branco vestido de branco é médico, preto vestido de branco é macumbeiro"; "branco subindo montanha está praticando esporte radical, preto subindo montanha está voltando para casa"?

Confiram essa piadinha de péssimo gosto que recebi por email. Leiam e tirem as suas conclusões, se quiserem:



Antigamente se ensinava e cobrava tabuada, caligrafia, redação, datilografia...
Havia aulas de Educação Física, Moral e Cívica, Práticas Agrícolas, Práticas Industriais e cantava-se o Hino Nacional, hasteando a Bandeira Nacional antes de iniciar as aulas..


Leiam relato de uma Professora de Matemática:

Semana passada comprei um produto que custou R$15,80. Dei à balconista R$ 20,00 e peguei na minha bolsa 80 centavos, para evitar receber ainda mais moedas. A balconista pegou o dinheiro e ficou olhando para a máquina registradora, aparentemente sem saber o que fazer.

Tentei explicar que ela tinha que me dar R$5,00 de troco, mas ela não se
convenceu e chamou o gerente para ajudá-la. Ficou com lágrimas nos olhos enquanto o gerente tentava explicar e ela aparentemente continuava sem entender.
Por que estou contando isso?

Porque me dei conta da evolução do ensino de matemática desde 1950, que
foi assim:


1. Ensino de matemática em 1950:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção é igual a 4/5 do preço de venda. Qual é o lucro?

2. Ensino de matemática em 1970:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00.O custo de produção é igual a 4/5 do preço de venda ou R$80,00.. Qual é o lucro?

3. Ensino de matemática em 1980:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção é R$80,00. Qual é o lucro?

4. Ensino de matemática em 1990:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção é R$80,00. Escolha a resposta certa, que indica o lucro:
( )R$ 20,00 ( )R$40,00 ( )R$60,00 ( )R$80,00 ( )R$100,00

5. Ensino de matemática em 2000:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção é R$80,00. O lucro é de R$ 20,00.
Está certo?
( )SIM ( ) NÃO

6. Ensino de matemática em 2009:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$100,00. O custo de produção é R$ 80,00.Se você souber ler coloque um X no R$ 20,00.
( )R$ 20,00 ( )R$40,00 ( )R$60,00 ( )R$80,00 ( )R$100,00

7. Em 2010 vai ser assim:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$100,00. O custo de produção é R$ 80,00. Se você souber ler coloque um X no R$ 20,00.(Se você é afrodescendente, especial, indígena ou de qualquer outra minoria social não precisa responder)
( )R$ 20,00 ( )R$40,00 ( )R$60,00 ( )R$80,00 ( )R$100,00

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Manifesto Porta na Cara

E depois os apologetas da democracia racial ainda dizem que não existe racismo no Brasil.

Segue para a vossa apreciação.

domingo, 15 de novembro de 2009

O racismo nosso de cada dia

Minha mãe costuma dizer que há muitas coisas na vida em que nós só acreditamos depois de ver. Por outro lado, há coisas que nem depois de ter visto nós conseguimos acreditar.

Recebi este "convite" pela internet hoje. Trata-se de um evento organizado pelo SESC Madureira, do Rio de Janeiro, pela passagem do Mês da Consciência Negra.

Não vou falar nada. Leiam e tirem as vossas conclusões, se quiserem.


Prezados,

O SESC Madureira desenvolve o projeto “Arte de Encontrar “que tem como proposta a prática de parcerias entre comunidades populares, instituições públicas, privadas e do terceiro setor. O projeto valoriza o potencial criativo de crianças e jovens de diversas comunidades, propiciando a troca de experiências .

O próximo encontro ocorrerá no dia 17/11/2009 a partir das 14:00h. Este mês com a temática “Consciência Negra”: conversando sobre a cultura “Banto”, com os historiadores Walter Nkosi e André Lemba; apresentações de danças afro e café servido por mucama, lembrando os áureos tempos coloniais. As instituições poderão participar ativamente apresentando suas produções artísticas, mediante inscrições prévias ou assistindo ao evento.

Contamos com a sua presença!

SESC MADUREIRA

Rua Ewbanck da Câmara, 90. Tels: 3350-1855 e/ou 3350-4536

E-mails: Madureira.comunidad e@sescrio.
org.br e/ou Madureira.terceirai dade@sescrio. org.br

Equipe Comunidade/Terceira Idade

Att
Roberta Vieira
robertasantos@
sescrio.org. br
3350-1855

os parceiros confirmados: Novembro

Música e Dança:

ACAP'S (com apresentação de dança); apresentará três números de dança, trazendo 10 crianças para atuarem.

Expositores:

Waldecyr Rosas (Arteiros)
Vera Lúcia (GFACGR)
Margarida Feitosa (iniciante)
Heronildes (Instituto consciência&companhi a)

os parceiros confirmados: Dezembro

Música e Dança:

ACAP'S
a.. Apresentará números de dança (circo, dança e Hip hop), trazendo 50 crianças para atuarem;
b.. Trará oficina de Hip hop
c.. Estamos tentando fechar, oficina de corte de cabelo

Expositores:

Waldecyr Rosas (Arteiros)
Vera Lúcia (GFACGR)
Margarida Feitosa (iniciante)
Heronildes (Instituto consciência&companhi a), com possibilidades de contarmos com mais expositores vinculados a unidade.

Obs: Gostaría de contar com a colaboração de todos, no sentido de abrangermos mais e mais nossos encontros. E ressaltar que estamos aceitando sugestões para os próximos encontros.

Aguardo retorno!!!!!!!!!!!!!! !!!!!!!!!!!!!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Uma constatação.

"É só receber um afago, e o povo logo se esquece das chibatadas".

Vamos tomar vergonha na cara, minha gente. Enquanto nós continuarmos agindo dessa forma, nada mudará nessa merda de país.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sobre os pagodeiros baianos e a sua suposta falta de "cultura musical".

Para quem ainda pensa que pagode é "baixaria"; que os pagodeiros não estão antenados com que estão acontecendo no mundo da música; que o pagode baiano só deprecia a imagem da mulher (não estou dizendo que isso acabou, é claro); que acham que o pagode não pode ser usado para mandar mensagens positivas para as pessoas e fazer crítica social; ou que pagodeiro não tem cultura musical (seja lá o que isso signifique), esse texto é uma boa resposta.

Não copiei e colei o texto aqui porque não tenho autorização da revista que o publicou para fazer isso. Se fizesse, fatalmente seria processado.

Leiam e tirem as vossas conclusões, se quiserem.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O caso da "puta" da UNIBAN

Vi uma coisa ontem na internet que me deixou estarrecido. No dia 22 de outubro deste ano, uma estudante da UNIBAN de São Bernardo do Campo (SP) foi ameaçada de estupro por alguns colegas por ter ido à faculdade de minissaia.

A moça, com medo, teve de refugiar-se em uma das salas da faculdade e só saiu de lá escoltada pela polícia.

Quem quiser ver o vídeo, pode conferir aqui:


video

Um representante da universidade, após ser questionado, disse que tudo isso aconteceu porque "ela provocou, deu motivos". Fiquei pensando cá com os meus botões: que porra é essa? As mulheres não tem mais o direito de usar a roupa que quiserem? A mulher que usa minissaia ou uma roupa decotada é uma desfrutável por excelência, uma mulher que quer dar para todo mundo? E se por acaso ela passasse de minissaia na minha frente e não quisesse dar para mim, que direito eu teria de me apossar do corpo dela na marra?

Se um homem fosse estuprado (sim, minha gente, há estupradores que atacam homens também; as mulheres não são as únicas vítimas desse crime), alguém justificaria a agressão que ele sofreu com base na roupa que ele estava vestido quando foi atacado? Não. Então por que ainda há quem justifique o estupro de uma mulher com base na "roupa inapropriada" que ela estava usando? Pois seria justamente isso que as pessoas - inclusive as autoridades policiais - diriam caso ela fosse estuprada.

Fiquei tremendamente surpreso - e revoltado - com o fato de outras mulheres estudantes da UNIBAN terem se divertido com o fato e ainda gritado "puta! puta! puta!" quando a moça passou pelos corredores da faculdade escoltada por policiais. Pensei: que loucura! O que poderia ter acontecido com essa moça poderia também ter acontecido com qualquer uma delas. Afinal de contas, elas também são mulheres.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Causa mortis: racismo

Sempre digo aos meus estudantes que apesar de lermos sobre casos de racismo, preconceito, violência e congêneres, assistir a reportagens, filmes e documentários, e debatermos sobre o assunto, tendemos a pensar que essas coisas estão meio que distantes de nós. Não sei como nem por que isso acontece, mas o fato é que pensamos que isso jamais nos atingirá, pois numa produção televisiva ou numa matéria jornalística o evento parece frio, distante, e talvez seja por isso que pensamos dessa forma. Entretanto, estamos totalmente enganados, pois o preconceito, o racismo, a homofobia, o desrespeito às manifestações religiosas e outras formas de agressão correlatas estão muito mais próximos do que nós imaginamos.

Há muito tempo, comecei a fazer um esforço para deixar de pensar assim. Tenho tentado imaginar que tudo pode acontecer comigo, pois só desta forma eu poderei tomar os meus cuidados para não ser vítima de uma desgraceira qualquer. Entretanto, nem sempre consigo – afinal de contas, também sou humano.

É sempre assim. Toda vez que nós denunciamos e protestamos contra um preconceito por demais naturalizado em nossa sociedade, sempre aparece alguém para minimizar a situação. No caso do racismo, é comum ouvirmos coisas do tipo "foi uma brincadeira", "eu não falei isso para te ofender", "você está com mania de perseguição", "você é muito radical", "agora ninguém pode falar mais nada contigo porque tudo é racismo pra você", dentre outras coisas. O racista costuma falar as merdas dele como se fosse a coisa mais natural do mundo, e quando nós nos rebelamos contra isso ele ainda se dá de ofendido!! Trocando em miúdos, o racista nos agride e o errado somos nós porque protestamos contra a agressão.

Quando eu falo do alto poder de letalidade do racismo então, sou chamado de exagerado na hora. “Afffffffffff, Rogério!! Que exagero!! Você também, viu? Aparece com cada uma!!”

Há duas semanas, um fato trágico ocorrido no bairro onde eu moro mostrou mais uma vez o poder devastador do racismo. Um adolescente de 14 anos, tido como branco pela família, começou a namorar uma menina preta. Ao saber disso, os familiares não aceitaram o relacionamento e, para dissuadi-lo, começaram a encher a cabeça dele com os preconceitos mais odiosos que se pode imaginar: a mãe dele disse que não queria que ele "sujasse a família"; que ele "namorasse uma neguinha"; que se ele engravidasse a namorada, o filho fatalmente nasceria com "cabelo ruim", e por aí vai.

O menino se viu tão atordoado e pressionado pela família por causa disso, que tomou uma medida drástica: comeu chumbinho e se matou.

Ao saber disso, eu fiquei pensando como a namorada desse cabra está arrasada. Se não for feito um trabalho sério (e rápido!), ela certamente não conseguirá relacionar-se com mais ninguém. Será uma pessoa fadada ao fracasso sentimental. Tudo porque ela é preta, e a família do namorado dela não queria que ela “manchasse” a vida do rapaz. O racismo fará com que ela pense que o problema está nela, pois normalmente é isso que acontece.

Houve quem dissesse que a família do suicida está sentindo um profundo remorso por causa do desfecho trágico do caso. Eu não acredito nisso. Apostaria que a mãe desse adolescente está colocando esse fardo nas costas da menina, ou seja, chegou para ela e disse o seguinte: “a culpa é sua!! O meu filho morreu por causa de você”. Tudo para que a menina se desespere e faça a mesma coisa que o namorado dela fez.

O que mais me revolta nisso tudo é saber que se alguém perguntar à mãe desse rapaz se ela é racista, ela dirá que não. Mas afinal, quem é racista nesse país?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Boicote ao filme Os Normais 2

Esse texto não é meu. Está circulando pela internet.

Resolvi divulgá-lo aqui porque sou baiano, também assisti a esse filme e também me senti profundamente ofendido com a piada de péssimo gosto e absolutamente desnecessária divulgada no filme.

Só não levantei e fui embora no meio da sessão porque não estava sozinho.

Reforço o pedido feito no manifesto: o baiano que tem um pouco de vergonha na cara, e não gosta de ser chamado de preguiçoso (até porque não somos), não deve gastar o dinheiro que ganha com muito trabalho para assistir a essa porcaria.

Segue para a vossa apreciação.


QUERIDOS AMIGOS,
MAIS UMA VEZ ESTOU ENVIANDO MENSAGEM SOBRE O MESMO ASSUNTO,
MAS, ESSA PROPAGANDA NEGATIVA QUE VEM PREJUDICANDO OS BAIANOS, PRINCIPALMENTE OS QUE PRECISAM ESTUDAR E TRABALHAR FORA DO ESTADO, ESTÁ ME INCOMODANDO BASTANTE.
ONTEM À NOITE, FUI AO CINEMA COMO SEMPRE FAÇO PARA QUEBRAR A ROTINA DA SEMANA DE TRABALHO.
FUI ASSISTIR AO FILME "OS NORMAIS 2 - UMA NOITE INESQUECÍVEL", ENTRETANTO, TIVE O DESPRAZER DE ME DEPARAR COM UM FILME IMPREGNADO DE DIÁLOGOS COM MUITOS PALAVRÕES E DE BAIXÍSSIMO NÍVEL, ALÉM DE UMA PIADA DE MUITO MAL GOSTO SOBRE BAIANO:
O DIÁLOGO TOTALMENTE DESCONEXO AO CONTEXTO (ALIÁS, O FILME TODO É UMA GAFE QUE ELES CLASSIFICAM COMO COMÉDIA),
DIZIA O SEGUINTE:"VOCÊ SABE O RESULTADO DA MISTURA DE UM BICHO PREGUIÇA COM UM SER HUMANO? UM BAIANO DE SUÉTER" ,
EM SEGUIDA APARECE UM BICHO PREGUIÇA VESTIDO.
POR ESTES MOTIVOS É QUE PEÇO A TODOS OS BAIANOS
QUE NÃO GASTEM SEU TEMPO E DINHEIRO SUADO (SIM, O BAIANO TRABALHA MUITO E GANHA POUCO)
COM UM LIXO DE FILME ACULTURADO E PRECONCEITUOSO.
BOICOTEM MESMO! É ASSIM QUE SE DÁ O TROCO PARA ATORES E DIRETORES
QUE ACHAM QUE PODEM GANHAR DINHEIRO COM O DEBOCHE.
DE UMA COISA TENHO CERTEZA: AQUI NA BAHIA, ELES NÃO VÃO TER LUCRO COM ESTE LIXO!!!

BEIJOS
ROSANA BUFFONE
(DIVULGUEM A PROPAGANDA NEGATIVA DO FILME PARA O MAIOR NÚMERO DE PESSOAS).

sábado, 22 de agosto de 2009

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O "jeitinho" inglês (ou o Brasil não é uma maravilha, mas também não é a lata de lixo do mundo).

Liguei o computador hoje a fim de escrever sobre outra coisa, mas mudei de ideia ao ver uma reportagem na página do UOL. Vi um vídeo sobre o caso das duas mulheres inglesas que foram presas no Rio de Janeiro acusadas de tentar aplicar um golpe conhecido como golpe do seguro. Foi assim: após terem chegado ao Brasil e se hospedado no hotel, elas foram a uma delegacia de polícia e disseram que foram roubadas, e que o ladrão havia levado toda a bagagem delas, tudo isso para receber o dinheiro do seguro. Entretanto, os policiais desconfiaram e resolveram ir ao hotel onde elas estavam hospedadas e constataram que se tratava de um golpe, pois todas as coisas que supostamente haviam sido roubadas estavam lá. Resultado: as duas foram presas e acusadas de tentativa de estelionato (art. 171 do Código Penal Brasileiro) e comunicação de crime inexistente (art. 340).

Hoje, um mês após o crime, elas foram julgadas e condenadas a um ano e cinco meses de prisão, mas a pena poderá ser convertida em prestação de serviços à comunidade. Os passaportes das duas estão retidos pela polícia desde o dia em que as duas foram presas, mas a defesa entrou com um pedido de liberação dos dois documentos na justiça. Resta saber se elas permanecerão no Brasil para cumprir a pena caso os passaportes sejam liberados (o que vocês acham?).

O que mais me revoltou foi a reação de algumas pessoas demonstrada na seção para comentários da matéria. Algumas pessoas disseram que a pena foi “muito dura”, que “não havia necessidade de tanta rigidez”; houve um que disse que acha temerário que essas inglesas prestem serviços comunitários aqui no Brasil; “por que não se faz uma operação padrão igual a essa no Senado?” Esses foram alguns dos impropérios disparados lá.

Eu fiquei pensando cá com os meus botões: “brasileiro é muito idiota mesmo”. Quanto sentimentalismo barato! Estão com peninha? Levem-nas para as vossas casas. A justiça brasileira está corretíssima ao ter condenado essas duas golpistas. Se duas brasileiras tivessem feito isso na Inglaterra, elas já teriam sofrido o diabo nas mãos da polícia inglesa; a essa hora, estariam presas na cadeia mais imunda da Inglaterra, incomunicáveis e sofrendo todo tipo de tortura física e psicológica – isso se já não estivessem mortas, é claro.

Aliás, os brasileiros nem precisam cometer crimes para serem maltratados lá. Até onde eu sei (corrijam-me se eu estiver errado, por favor), não é necessário tirar visto para entrar na Inglaterra. É um oficial do serviço de imigração inglês que decide se nós podemos entrar no país ou não. Isso quer dizer que se eu chegar ao aeroporto de Londres e o oficial for com a minha cara, eu serei autorizado a entrar. Caso contrário, eu terei de pegar os meus paninhos de bunda e voltar para o Brasil – ainda que a minha documentação esteja toda regularizada.

Casos de abuso da polícia inglesa contra brasileiros não faltam. No momento, só me lembro de dois: uma mulher (não me lembro de onde) que passou anos juntando dinheiro para pagar um intercâmbio de curso de inglês em Londres, mas teve de voltar para o Brasil porque o policial simplesmente não foi com a cara dela, e outro de uma menina do interior da Bahia (esqueci de qual cidade) que foi fazer turismo e foi tratada pior do que um cachorro pelos policiais. A coisa foi tão grave que a menina menstruou enquanto esteve presa no cubículo onde foi posta no aeroporto e os canalhas não permitiram sequer que ela fosse ao banheiro para se limpar e trocar o absorvente. Quem souber de mais algum exemplo, que se manifeste.

Outras pessoas ficaram penalizadas pelo fato de as duas pilantrinhas de meia-pataca terem ficado presas durante seis dias na penitenciária feminina de Bangu e sido condenadas a um ano e cinco meses de cana. Oooooh, meu deus! Coitadinhas das pobrezinhas!! E o que aconteceu com Jean Charles lá no metrô de Londres, cambada, vocês já esqueceram? O cabra era inocente, não tinha nada a ver com a situação, mas levou sete tiros na cabeça em uma ação atabalhoada da Scotland Yard (considerada a melhor polícia do mundo [eu nem quero imaginar como é a pior]) só porque foi confundido com um terrorista. Bem que os policiais poderiam tê-lo prendido e averiguado os fatos, mas preferiram matá-lo para dar uma resposta rápida à sociedade inglesa, atônita com os atentados à bomba no metrô de Londres. Bem que os mais experientes dizem que memória de brasileiro é curta.

Não podemos esquecer também o caso de Ronald Biggs. Um ladrão safado, que assaltou o trem-pagador britânico em 1963, fugiu da cadeia, veio para o Brasil, rapidamente descobriu que estrangeiro que tem filho brasileiro não pode ser extraditado, e por isso emprenhou a primeira que passou pela frente dele para gozar desse benefício. Resultado: ficou aqui no Brasil durante mais de trinta anos, tirando onda de bon vivant, e só retornou à Inglaterra por livre e espontânea vontade em 2001 porque estava doente e sabia que não teria direito a tratamento médico aqui no Brasil.

Eu só espero que o caso dessas duas golpistazinhas inglesas sirva para que nós paremos de pensar e dizer por aí que gente pilantra, trambiqueira, que gosta de levar vantagem em tudo só existe aqui no Brasil; que o Brasil é o “país do jeitinho”. Gente, o “jeitinho” não é brasileiro, e sim mundial.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Sobre as tentativas de reinclusão da Bahia no horário de verão

Todo ano é a mesma xurumela. Quando chegamos aos meses de agosto e setembro, é de praxe ver nos jornais baianos os clamores dos defensores da reinclusão da Bahia ao horário de verão. As justificativas são várias, assim como os seus autores.

De um lado, estão os empresários baianos que dizem que a permanência da Bahia fora do horário de verão traduz-se em “sérios prejuízos à economia da Bahia” (leia-se: redução dos seus lucros). Isso porque há uma hora a menos para realizar operações de câmbio; muita gente perde os voos devido à diferença de horário em relação ao horário de Brasília; as pessoas têm sempre uma hora a menos de expediente bancário, dentre outras coisas. O empresariado esperneou, gritou, deu chilique, mas felizmente não conseguiu sensibilizar o governador Jaques Wagner. Resultado: a Bahia continuará fora do horário de verão “em solidariedade aos outros estados do Nordeste”, nas palavras do governador.

Do outro, está a população (e é justamente isso que me deixa mais puto da vida). Sempre nos final de agosto e começo de setembro, as emissoras de TV baianas saem às ruas para saber a opinião do público sobre o assunto. As respostas são sempre as mesmas: “ah, eu acho que o horário de verão deveria voltar porque assim a gente não perde a novela”; “o horário de verão é bom porque a gente fica com uma hora a mais para aproveitar o sol”; “com o horário de verão é possível ficar uma hora a mais na praia tomando cerveja com os amigos”. Citarei somente esses exemplos para não ficar chato.

Eu fico mais puto ainda porque ninguém me entrevista. Sei muito bem que as emissoras de TV cortariam a minha resposta na hora de editar a fita, mas seria um grande orgasmo mental dizer o que eu penso a esses repórteres idiotas.

Ver os empresários reivindicando o retorno do horário de verão é compreensível, pois eles só estão preocupados com os seus interesses capitalistas, ou seja, eles só querem encher os seus bolsos de dinheiro e o resto que se foda. Entretanto, ver e ouvir o povão, a população, a “plebe rude” defendendo isso é de matar! Custa-me a acreditar que alguma pessoa seja capaz de dizer tamanha sandice.

O horário de verão só é bom para quem pode dar-se ao luxo de acordar às 10h e possui carro. Pois para quem mora na periferia, acorda às 5h, anda 700m até o ponto mais próximo e tem de esperar o ônibus sozinho num ponto escuro, sem segurança, rezando para que o buzu chegue antes do ladrão, adiantar o relógio em uma hora é uma desgraça. Sem contar os transtornos físicos causados: comer fora do horário que já estamos acostumados, dores de cabeça (quando a Bahia ainda estava inclusa, eu sentia fortes dores durante os três primeiros dias), distúrbios do sono... A lista de problemas é interminável.

Em suma, não vale a pena passar por tanto tormento em prol de uma economia de energia irrisória. Num país como o Brasil, existem formas muito mais inteligentes de poupar eletricidade do que adiantar o relógio em uma hora. Conter o desperdício e utilizar fontes alternativas e limpas já ajudam bastante.

sábado, 8 de agosto de 2009

Fim de semana da Stock Car em Salvador.

Neste fim de semana, Salvador se transformará na capital brasileira da velocidade. Pela primeira vez em trinta anos de história, será realizada uma etapa do campeonato brasileiro de Stock Car no Nordeste e em um circuito de rua – nas ruas do Centro Administrativo da Bahia. Como atualmente o automobilismo não goza de muito prestígio aqui na Bahia, várias ações de divulgação foram feitas para mobilizar o público: carros ficaram expostos em alguns dos principais shopping centers da cidade; pilotos deram voltas com os carros no Dique do Tororó - região do centro de Salvador; o piloto Cacá Bueno fez um pit-stop em frente ao Mercado Modelo e Elevador Lacerda; os pilotos Xandinho Negrão e William Starostik passaram uma tarde autografando bonés no Shopping Iguatemi em troca de 1kg de alimento não-perecível. Sem contar a propaganda massiva feita pela imprensa esportiva baiana desde o final do mês passado.

Reconheço que isso será muito bom para o esporte baiano. A divulgação que a cidade já recebeu – e ainda vai receber – em virtude da corrida que acontecerá amanhã será ótima. Para aqueles que estão brigando pela construção de um autódromo em Salvador, essa é uma boa oportunidade de intensificar a luta. Além disso tudo, como estamos em período de baixa estação, o evento ajudou a incrementar o turismo baiano (que está passando por uma das piores fases nos últimos vinte anos), uma vez que há uma boa quantidade de pessoas que virão a Salvador só para assistir à corrida.

Entretanto, uma coisa que eu vi nos jornais chamou bastante a minha atenção, e é a isso que eu quero dar destaque: todos os ingressos foram vendidos em 48 horas, e por isso a organização criou, no local onde acontecerá a prova, um espaço batizado de Praça dos Telões, onde as pessoas de menor poder aquisitivo (o Jornal da Metrópole desta semana usou o termo “povão”, mas eu detesto essa palavra) poderão pagar de cinco a dez reais para assistir à prova através de telões de alta resolução.

Que falta de respeito! Vejam só se eu vou pagar dez reais para ver imagem de telão!!! Imagem de telão, eu vejo em casa. Sei que isso não causará efeito prático nenhum (eu sou um só, e uma andorinha só não faz verão), mas essa é a única forma que eu tenho de protestar contra essa ideia de que os pobres têm de estar sempre relegados aos piores lugares. Percebam: a organização do evento só pensou em criar uma forma de atrair os mais desfavorecidos depois que os ingressos foram todos vendidos. Por que a organização não pensou em criar preços mais em conta em uma zona que os pobres pudessem ver os carros na pista?

Certamente aparecerá alguém dizendo que eu sou ingênuo, imbecil, metido a besta, dentre outras palavras. Digam o que quiserem. Eu só não concordo que o sofrimento, o descaso e o menosprezo são coisas naturais. Não é porque eu sou preto, pobre e periférico que eu tenho de aceitar sempre os restos e dizer que “é assim mesmo”. Como bem disse o Kortezia, “eu estou carente, mas eu quero coisa boa”.

Isso é a mesma coisa de pagar para assistir a uma apresentação de Emílio Santiago (que eu gosto muito), um espetáculo teatral ou uma apresentação do Cirque du Soleil numa fileira tão distante do palco e ter de ver o espetáculo através de telão. Se fosse para ver imagem de TV, eu compraria um DVD pirata no camelô e assistiria à apresentação em casa.

Na Stock Car, não seria diferente. Como eu não tive grana para pagar o preço dos ingressos das áreas mais nobres (até porque o preço já é colocado para selecionar o público), eu também não irei lá. Eu até tenho dez reais livre aqui no meu bolso no momento, mas ele será usado em outra coisa. Acompanharei a transmissão através do Esporte Espetacular, pois sairá bem mais barato.

P.S.: de acordo com o Jornal da Metrópole do dia 24/07 (www.jornaldametropole.com.br), o Cirque du Soleil cancelou quatro dias de apresentação aqui em Salvador (27/8, 3/9, 4/9 e 6/9). Os motivos do cancelamento até agora não foram – e eu imagino que nunca serão – divulgados, mas eu quero acreditar que foi o baixo público.

Se for isso mesmo, será bem feito. Se os preços dos ingressos fossem mais baixos, a presença de público seria bem maior e com certeza nenhum dia de apresentação seria suspenso.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Unidos venceremos - ou pelo menos incomodaremos bastante.

Essa semana, vi uma coisa que me deixou profundamente alegre. Estava navegando pela internet, e li uma nota no mínimo interessante: revoltados com os maus resultados do time, alguns torcedores do Bahia resolveram lançar a campanha Público Zero, que consiste em estimular a torcida a não comparecer ao Estádio de Pituaçu na próxima rodada, quando o Bahia enfrentará o Vasco em partida válida pela série B do Campeonato Brasileiro. Nenhuma torcida organizada do time assumiu a autoria da campanha, mas a mensagem já está se espalhando loucamente pela internet através daquelas correntes chatas (toda vez que eu recebo um email FWD, eu nem abro a mensagem).

Após ler essa nota, eu quase esporrei de tanta felicidade. Reagi dessa forma porque finalmente alguém entendeu que a melhor forma de protestar contra os maus resultados de um time de futebol é simplesmente não ir mais ao estádio, ou seja, boicotar. Gritar, balançar cédulas de dinheiro em frente às câmeras de TV, chamar os jogadores de mercenários, ameaçá-los de morte, ir ao aeroporto para tentar agredi-los, pichar os muros da sede do clube, invadir o centro de treinamento, dentre outras tantas palhaçadas, não adiantam porra nenhuma. Dirigente de clube está se lixando para isso. Quando aparece alguma torcida organizada fazendo bagunça, a primeira reação que eles têm é dizer que todos são vagabundos e marginais e chamar a polícia para prender todo mundo. Resultado: uma caralhada de gente vai em cana e tudo fica na mesma.

Lembro que em 1997, eu fui à Fonte Nova (hoje desativada) assistir a um jogo entre Bahia e Vitória. A bagunça e o descaso com o torcedor estavam demais: filas intermináveis; cambistas cobrando de cinqüenta a sessenta por cento de ágio; os ingressos de meia-entrada só eram vendidos duas horas antes da partida “para evitar ação de cambistas”, mas nem o primeiro da fila conseguia comprar as entradas... A população começou a reclamar horrores, falar mal, dizer que aquilo era um absurdo, que o torcedor não merece ser tratado daquela maneira. Depois de ter ouvido toda aquela lamentação, eu irrompi no meio da multidão e disse o seguinte: “gente, nós estamos reclamando disso tudo aqui, mas nós precisamos entender que o culpado de tudo isso não é o presidente do Bahia, o presidente do Vitória, o diretor da SUDESB, o presidente da Federação Baiana de Futebol, o presidente da CBF e muito menos o presidente da FIFA. Os verdadeiros culpados disso tudo somos nós, torcedores, que estamos aqui hoje, passando por toda essa humilhação para pagar caro para assistir a uma partida de futebol, mas na próxima rodada todos nós estaremos aqui com o rabinho entre as pernas e prontos para sermos humilhados novamente. Se nós tivéssemos um pouco mais de vergonha na cara e nos recusássemos a vir aos estádios enquanto essa situação não mudar, com certeza os dirigentes sentiriam a dor no bolso e passariam a nos tratar melhor”. Algumas pessoas gostaram do que eu falei, outras quiseram me matar, mas felizmente eu sobrevivi e hoje estou aqui, vivo para contar história.

O que estou querendo dizer com isso é que nós temos muito poder para mudar essa situação, desde que ajamos coletivamente. O boicote é um mecanismo de pressão maravilhoso; foi assim que os negros do sul dos Estados Unidos acabaram com a segregação racial no sistema de transporte coletivo. Como os brancos sempre tinham preferência, os negros se organizaram e passaram 381 dias sem viajar nos ônibus urbanos das cidades do Sul. Após esse tempo, e arrasados com os prejuízos, os empresários pressionaram o governo para pôr fim à lei que dava suporte à discriminação racial nos ônibus (Plessy v. Ferguson), e assim os pretos voltaram a viajar sem serem mais obrigados a sentar-se somente na parte de trás e a ter de dar o lugar a uma pessoa branca caso todos os lugares estivessem ocupados e o branco estivesse de pé.

Pautado nesse exemplo, nós bem que poderíamos fazer o mesmo por aqui não só para protestar contra a diretoria do Bahia ou do Vitória, mas para outras coisas mais importantes. Cajazeiras é o maior bairro da América Latina, com uma população de aproximadamente setecentas mil pessoas. Alguém já pensou o tamanho do prejuízo que os donos de empresas teriam se a população de Cajazeiras deixasse de pegar ônibus durante uma semana? Seria uma ótima forma de protestar contra o péssimo estado dos veículos em que somos obrigados a viajar diariamente, bem como contra os aumentos sucessivos e abusivos no valor da passagem. Esse é só um exemplo dos efeitos que um boicote bem organizado pode causar.

Contudo, eu tenho plena consciência de que isso não é coisa fácil de fazer. Por dois motivos: 1) muita gente vive de empregos temporários e/ou “bicos”, e por conta disso não podem se dar ao luxo de ficar uma semana sem trabalhar sob pena de não terem o que comer; 2) por mais incrível e inaceitável que possa parecer, a exploração e a desigualdade já estão naturalizadas na cabeça de muita gente, e por isso a maior parte da população acha, dentre outras coisas, que pegar ônibus lotado é normal, pois “transporte de pobre é assim mesmo; se você não quer ser empurrado, pegue táxi”. Nem todos estão dispostos a aguentar as consequências de tal rebeldia, mas fica aqui o recado.

Apesar da minha felicidade inicial, eu duvido que a torcida tricolor leve esse movimento adiante. Isso porque, após seis rodadas, o Bahia conseguiu ganhar uma partida (contra o Campinense, último colocado na série B), e seguramente muita gente está pensando que o time já está bom e que por isso deve comparecer ao estádio de novo.

Para mim, essa vitória michuruca não tem importância nenhuma. Infelizmente, o torcedor do Bahia se conforma muito com migalhas. Eu sou torcedor tricolor, mas só retornarei ao estádio quando o Bahia estiver de volta à primeira divisão. Do jeito que as coisas estão, isso vai demorar muito. Mas, e daí? Eu não estou com a menor pressa.

Eu sou torcedor exigente. Não ganho dinheiro fácil, portanto ninguém vai levar o meu dinheiro fácil.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Nós somos tão inocentes assim?

Hoje, uma coisa que me deixou bastante intrigado. Estava assistindo ao Brasil Urgente, apresentado por José Luiz Datena, e vi uma reportagem sobre um acidente ocorrido com uma van que fazia transporte escolar clandestino no Rio de Janeiro, acidente esse que causou a morte de quatro crianças. Foi um verdadeiro festival de irregularidades: a van não estava preparada para transportar crianças, não possuía a faixa amarela com a palavra "Escolar", não havia cinto de segurança para todos os passageiros, não havia uma pessoa para controlar a entrada e a saída dos estudantes, e, para completar, o motorista não tinha carteira de habilitação. Ou seja, não havia a menor possibilidade de essa história ter um final feliz.

No enterro, os pais, mães e parentes dos mortos estavam consternados e revoltados. Todas as pessoas, além de lamentar a morte das crianças, estavam xingando o motorista, dizendo que ele era "irresponsável", "assassino", que ele "merece apodrecer na cadeia", que ele "deve pagar pelo que fez". O protesto que mais chamou a minha atenção foi o de uma mulher que estava gritando a plenos pulmões que "esse motorista matou a minha filha, a minha única filha... Esse irresponsável tirou de mim a única filha que eu tinha... Eu quero justiça!!". Imagino eu que as reações das outras pessoas não foram muito diferentes.

Agora, eu quero fazer uma perguntinha cruel: ninguém viu isso? Será possível que nenhum dos pais, mães e responsáveis se preocupou em checar a qualidade do carro em que os seus filhos seriam transportados todos dias da casa para a escola e da escola para casa? Por acaso essa mulher que chamou o motorista de "irresponsável" e "assassino" foi à escola averiguar as condições do carro em que a sua filha viajaria todos os dias, isto é, saber se o carro havia sido vistoriado pelo DETRAN, se havia extintor de incêndio; ela procurou investigar se o motorista tinha carteira de habilitação?? Ela prestou atenção ao fato de o carro não possuir a faixa amarela com a palavra "Escolar"?

Não estou dando uma de advogado do diabo, mas fazendo uma análise crítica e fria da situação (ou pelo menos tentando). Fica fácil jogar a culpa em cima do motorista (não que ele não tenha a sua parcela de responsabilidade na tragédia, é claro); fica fácil pintá-lo como o "boi ladrão" da história, mas o que se pode esperar de uma situação dessa? É muito cômodo fazer vistas grossas para todos esses absurdos em nome de uma pretensa facilidade e atraídos pelos "preços mais em conta" e depois colocar o fardo em cima do motorista depois que a merda aparecer.

Várias vezes, a minha mãe disse que tinha (acho que não tem mais) vontade de trabalhar com transporte escolar depois que se aposentar. Ela disse que faria questão que a van dela fosse toda legalizada, ou seja, vistoriada pelo DETRAN, com cinto de segurança para todas as crianças, extintor de incêndio, uma pessoa para levar e trazer as crianças do carro até a porta de casa, e carteira de habilitação D, direção defensiva e o caralho. Contudo, depois de algum tempo ela se convenceu de que infelizmente poucos seriam os pais e mães que lhe contratariam para transportar os seus filhos. Afinal de contas, "fulaninho de tal também faz transporte escolar, não tem 'nenhuma dessas frescuras' no carro dele e cobra bem mais barato pelo mesmo serviço. É daqui pr'ali, não vai acontecer nada".

É por causa disso que acidentes desse tipo acontecem quase todo dia por esse brasilzão afora. Só aqui no bairro onde eu moro houve três (pelo que eu me lembro), também com vítimas fatais. Provavelmente os pais e mães dessas crianças procederam da mesma forma.

Coisas que eu não consigo entender (se é que eu conseguirei algum dia).

O trânsito de Salvador, assim como o de qualquer grande cidade brasileira, é uma bosta, e está ficando pior a cada dia que passa (daqui a pouco tempo, dono de carro em Salvador terá de pagar IPTU em vez de IPVA). Lembro-me de que há dez anos, quando nós falávamos de megacongestionamentos em Salvador pensava-se imediatamente na região do Iguatemi. Contudo (e infelizmente), não é mais assim hoje; em qualquer região de Salvador é possível ficar pelo menos meia hora parado em um engarrafamento. Quando o congestionamento acontece por motivo de uma batida, um assassinato, um deslizamento de terra, eu até consigo compreender que cheguei atrasado ou perdi um compromisso por um motivo impossível de ser previsto e consequentemente evitado. Entretanto, há coisas que eu definitivamente não consigo entender - e acho que nunca conseguirei.

Estava eu indo em direção ao subúrbio hoje à tarde para trabalhar. Como ninguém merece o trânsito da Av. San Martin, saí de casa o mais cedo que pude tanto para conseguir pegar um ônibus rumo à Av. Suburbana (que passam sempre lotados) como para fugir do engarrafamento que acontece todo fim de tarde na San Martin. Ledo engano. Para minha infelicidade, tive de perder pelo menos trinta minutos parado, em pé, dentro de um ônibus lotado e fazendo malabarismo para não esbarrar em ninguém (só não cheguei atrasado ao trabalho porque saí bastante cedo). Fiquei pensando nos prováveis motivos para aquele engarrafamento tão cedo (normalmente, os engarrafamentos acontecem com mais intensidade nessa avenida por volta das 18h): um acidente, um atropelamento, um assassinato, um caminhão que parou para fazer uma entrega...

Nada disso. Alguns funcionários da prefeitura estavam tapando buracos no asfalto. Porra!! Cinco horas da tarde?!?!?! Eu não sou engenheiro de trânsito, mas sei muito bem que obras desse tipo devem ser feitas fora do horário de pico justamente para não atrapalhar a vida das pessoas.

Será possível que a Prefeitura de Salvador não sabe disso? O trânsito de Salvador já é uma merda, e aqueles que deveriam fazer algo para melhorar a situação só fazem piorar! Até quando nós vamos aceitar isso??

Antes que alguém diga (se é que alguém lê as coisas que eu escrevo aqui), eu não estou colocando a culpa nos funcionários, pois sei que eles estavam cumprindo ordens. O problema vem de cima.

Se bem que é muita ingenuidade minha acreditar que a Prefeitura vai fazer alguma coisa para facilitar a vida dos moradores das áreas pobres de Salvador.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Proibição aos cursinhos pré-vestibulares no Rio de Janeiro

Vi esse texto na internet, li, achei interessante e por isso pedi a autorização do autor para colocá-lo aqui no meu blog. Apesar de o texto tratar da realidade específica do Rio de Janeiro, acredito que nós devemos conhecer o que se passa por lá, uma vez que aqui em Salvador a realidade dos cursinhos comunitários não é muito diferente - guardadas as devidas proporções, é claro.


Proibição aos Pré-Vestibulares continua...


Em outubro de 2006, o ex-prefeito Cesar Maia, de maneira triste e lamentável, proibiu que os pré-vestibulares comunitários utilizassem os espaços das Escolas Públicas Municipais para as suas aulas. Esse projeto funcionava há cerca de dez anos nessas escolas e tinha por objetivo criar condições para que os alunos pobres ingressassem na Universidade. Algo bonito e importante até porque, infelizmente, a educação pública, particularmente no Rio de Janeiro, é de péssima qualidade em função da total ausência do Estado em priorizá-la em suas ações governamentais. Professores desvalorizados e mal-remunerados, espaços públicos sucateados e a ausência de um política educacional são marcas, há muito tempo, da política pública carioca nessa área.

Na época da proibição, havia mais de 140 núcleos só na capital carioca e um histórico de aproximadamente 30 mil alunos oriundos desses projetos estudando em Universidades. Depois de diversas reuniões e tentativas de diálogo durante o ano de 2007, o ex-prefeito insistiu nessa absurda atitude alegando “falta de recursos orçamentários para manter as escolas abertas nos finais de semana para essas iniciativas comunitárias”. Porém, o verdadeiro motivo da proibição é que esses projetos voluntários ensinavam, além das matérias básicas do vestibular, tais como física, matemática e português, uma disciplina chamada “Cultura e Cidadania” onde eram trabalhados – através do método de Paulo Freire intitulado Pedagogia do Oprimido – assuntos como noções de cidadania, direito constitucional, voto consciente e organização popular.

Evidentemente que esse tipo de formação não interessa aos maus políticos, pois ele forma jovens pensantes e conscientes em nossa sociedade.

No segundo turno das eleições do ano passado, o Senhor Eduardo Paes prometeu reabrir as escolas públicas municipais a esses projetos. Porém, infelizmente, até agora isso não aconteceu apesar de todas as tentativas de diálogo estabelecidas esse ano com o atual Prefeito.
Acreditamos que o futuro seja construído por atitudes concretas no presente, principalmente quando se fala em educação. Nós apelamos, através desse artigo, para a sensibilidade do atual Prefeito, o Sr. Eduardo Paes. Estamos imbuídos do mais republicano espírito de solidariedade social. Não queremos que o atual Prefeito nos faça nenhum favor. Queremos apenas que ele, o Sr. Eduardo Paes, se não puder ajudar, pelo menos, não continue com a política lamentável de criminalização da pobreza feita pelo seu antecessor que, infelizmente, atrapalha, e muito, a construção do futuro que queremos para a nossa cidade. É sempre bom lembrar que só há pré-vestibulares comunitários porque o Estado é incapaz de promover uma Educação Pública de qualidade.

Investir em educação não é favor, mas obrigação de qualquer homem público que tenha o mínimo de responsabilidade na construção de um modelo de sociedade que tenha o bem comum como princípio fundamental.

Robson Campos Leite - www.robsonleite.com.br
Robson Campos Leite é Professor de Cultura e Cidadania do PVNC (Pré Vestibular para Negros e Carentes) e primeiro suplente de Vereador do Partido dos Trabalhadores - Rio de Janeiro

domingo, 19 de abril de 2009

O Aprendiz

O que eu vou relatar aqui pode parecer um pouco atrasado (depois da internet, nove dias parecem noventa anos), mas o conteúdo do texto é mais atual do que nunca.

Assisti ao episódio de estreia do Aprendiz 6 - Universitário, exibido no dia 9 de abril, comandado por Roberto Justus. Para minha surpresa, dentre os "aprendizes" havia duas pessoas fenotipicamente pretas: Guilherme, estudante de Comunicação, de São Paulo, e Mariana, estudante de Ciência da Computação, do Rio de Janeiro.

Era possível perceber na cara dos demais (todos brancos de classe média-alta) que eles não estavam contentes com a presença de Guilherme entre eles. Saquei logo de cara que o pessoal não desperdiçaria a primeira oportunidade de fritá-lo. Uma das participantes, de nome Stephanie Paris, foi a que mais demonstrou insatisfação com Guilherme, e por isso fez de tudo para que ele fosse chutado para fora do programa.

Como se não bastasse esses fatores, o cabra ainda deu todos os vacilos possíveis: não demonstrou empenho nas provas, estava visivelmente desconcentrado (tanto que esqueceu de fazer um pagamento importante), escreveu uma palavra errada por não dominar bem o inglês (ao invés de escrever "lounge" ele escreveu "loundge") e para piorar a situação estava cantando e batucando dentro do carro enquanto as outras participantes (dentre elas a citada Stephanie) estavam conversando com os demais integrantes da equipe pelo telefone. E olhe que ele foi encarregado de encontrar os lugares onde a equipe fecharia negócios necessários ao cumprimento da tarefa.

O clima de complô ficou evidente na sala de reunião, na qual os representantes da equipe perdedora devem explicar os erros cometidos durante a tarefa e aquele considerado o maior responsável pelo insucesso é demitido por Justus. Todos em uníssono jogaram a responsabilidade da derrota na fraca atuação de Guilherme (como se ele tivesse sido o responsável único pelo fiasco), tanto que a líder da equipe chegou a dizer que "ele demonstrou ser totalmente dispensável para equipe". Ela foi repreendida por Justus ao dizer isso, mas no final das contas fez o que todos os membros da equipe queriam: demitiu Guilherme do programa.

Trabalho em três cursinhos pré-vestibulares comunitários aqui em Salvador (frequentado majoritariamente por estudantes pretos, pobres, periféricos e suburbanos), e portanto usei esse exemplo em sala de aula para fazer uma analogia com o momento que eles estão vivendo, na esperança de que isso lhes ajudasse a pensar sobre o que estão buscando na vida. Desnecessário dizer que isso também serve para mim, uma vez que eu não sou melhor do que ninguém; também cometo erros, e luto diariamente comigo mesmo para não repeti-los.

É notório que a universidade não é um campo vazio dos preconceitos existentes na nossa sociedade: racismo, sexismo, homofobia, dentre outros. Por conta disso, é lógico que os pretos, pobres e favelados são pessoas indesejáveis dentro do espaço universitário (vide as forças organizadas contra a implantação do sistema de cotas nas universidades brasileiras). Diante disso tudo, é importantíssimo que nós tenhamos cuidado redobrado com a nossa postura na universidade e posteriormente no mercado de trabalho.

Nada de brincadeiras fora de hora. Nada de dar vacilo perto de pessoas que estão esperando o primeiro mole nosso para nos foguetar. Não estou dizendo que nós não devemos rir, contar piada, descontrair, mas tudo tem de ser feito no local e momento adequados. Na hora de falar sério, temos de ser sérios e sobretudo respeitar os costumes de cada lugar. Deixemos o riso, a gargalhada alta, as piadas e todas as outras manifestações de descontração para quando estivermos no bar com os amigos tomando uma cerveja, mas na hora em que estivermos na sala de aula da universidade ou no ambiente de trabalho devemos esquecer isso tudo. Esses locais têm as suas regras, as suas leis e os seus códigos específicos, e nós devemos respeitá-los se quisermos permanecer lá.

Parafraseando o grande (e para mim imortal) Milton Santos, nós somos pretos, pobres, favelados, periféricos e suburbanos, e por isso temos de ter muito cuidado e atenção com o nosso comportamento (a maneira de falar, o uso de gírias, as nossas roupas, os nossos hábitos à mesa e principalmente com a nossa aparência), pois qualquer mínimo equívoco que cometermos será suficiente para justificar todos os preconceitos existentes sobre as pessoas supracitadas.

É claro que não existe relação alguma entre o tipo de cabelo e a competência profissional de uma pessoa, mas também não se pode negar que os empregadores e demais pessoas nos julgam pela aparência. Em vista disso, nem tentem procurar emprego com o cabelo cheio de tranças, com roupas "alternativas", cheio de penduricalhos no pescoço e nos braços, pois tenham certeza de que vocês serão eliminados logo de cara.

Não me interpretem mal. Também sou preto, pobre e favelado, e falo isso porque também tive de cortar o meu cabelo para procurar emprego. Fiz isso com a maior tristeza do mundo, mas sabia que escola alguma daria emprego a um professor com um cabelo á la Don King. A corda só arrebenta do lado do mais fraco, e infelizmente o lado mais fraco é o meu.

domingo, 29 de março de 2009

"Pobre só gosta de porcaria".

Discuti esse tema a semana inteira com os meus estudantes em sala de aula. Por conta disso, resolvi coletivizar aqui algumas considerações acerca do assunto (não sei se alguém vai ler, mas isso é outra história. Não depende de mim).

Fala-se muito que "pobre só gosta de música ruim", que "pobre só escuta merda", que "não gosta do que é bom", e outras tantas besteiras do tipo. Já vi e ouvi muita gente dizer isso. Tive vários arranca-rabos com colegas de faculdade, professores, familiares e amigos por causa desse assunto. Todos eles, em maior ou menor grau, insistiram na ideia de que só os ricos gostam das "coisas boas", da "cultura" (como se os mais pobres não tivessem cultura, e que os ricos fossem uns poços de inteligência e erudição. Eu sempre bati - e ainda bato - de frente com todas as pessoas que dizem isso, pois discordo profundamente.

Discordo por algumas razões que tentarei expor nessas mal-traçadas linhas a partir de agora: os mais pobres não gostam da "alta cultura" por acaso? Os moradores das favelas e dos bairros de periferia não gostam de música clássica, jazz e blues, não vão ao teatro, não escutam Maria Rita, João Bosco, Chico Buarque e tantos outros do gênero simplesmente porque não querem ou porque os organizadores desses espetáculos usam de estratégias várias para impedir que os mais pobres tenham acesso a esse tipo de produção cultural? Não digam que isso é mania de perseguição minha, pois não é.

A minha mãe sempre curtiu - e acredito que ainda curte - muito as músicas de Julio Iglesias. Tinha vários LPs (que já foram jogados na lata do lixo há muito tempo). Certa vez (nem lembro mais quando), Iglesias veio a Salvador fazer uma apresentação no Clube Bahiano de Tênis (que não existe mais), e ao saber disso minha mãe quase enlouqueceu. Queria porque queria ir a essa apresentação de qualquer maneira. Ligou para o clube a fim de saber qual era o preço do ingresso, e ao desligar o telefone a decepção ficou estampada na cara dela. Foi informada por uma funcionária que não havia ingressos à venda, mas reserva de mesas com quatro cadeiras a quatrocentos reais (uma fortuna para ela). Como minha mãe não dispunha dessa quantia no momento, foi obrigada a desistir de realizar um dos seus sonhos. Sabe-se lá quando Iglesias voltará a Salvador - e se ela terá dinheiro para pagar o ingresso, é claro.

Outra vez, Chico Buarque veio a Salvador fazer uma apresentação no Teatro Castro Alves (um dos mais famosos da cidade. Como minha mãe gosta muito das músicas de Chico, também ficou louca de vontade de ir ao teatro vê-lo. Quando soube que o ingresso mais barato custava R$ 140, para ficar sentada na fileira Z10000000.... (na fileira G já não é possível enxergar mais porra nenhuma), ela mais uma vez teve de resignar-se.

Mais recentemente, a minha namorada estava reclamando comigo sobre uma apresentação de Maria Rita que aconteceu na Marina da Penha (local caríssimo e por isso frequentado somente pelos endinheirados baianos e por turistas igualmente endinheirados). Ela reclamava do alto preço do ingresso, do horário da apresentação, da dificuldade de transporte para chegar ao local (além de não haver ponto de ônibus próximo ao local, nenhuma linha de ônibus que sai do bairro onde moramos passa lá), da falta de dinheiro para pagar táxi... Após escutar tudo, eu lhe fiz a seguinte pergunta: "minha cara, você acha que o empresário que trouxe Maria Rita para fazer apresentação aqui em Salvador pensou em você? Pensou nos pobres moradores de periferia que gostam do trabalho dela? Você acha que os organizadores do espetáculo querem a nossa presença lá?".

É justamente isso. A nossa presença é rechaçada nos lugares e eventos "eruditos". Barreiras e mais barreiras são criadas para que pessoas como eu, minha mãe e minha namorada não apareçam nesses locais - como espectadores, é claro. Foi anunciado nos jornais que o Cirque du Soleil fará uma apresentação aqui em Salvador em agosto. O ingresso mais barato custará quase R$ 300 (para quem quiser sentar na fileira Z100000000...) e o mais caro (para quem quiser sentar na fileira A1) R$600.

Pensa que acabou? Nada disso. Além desses preços estratosféricos para a realidade da maioria dos moradores de Salvador, os ingressos só serão vendidos a clientes Bradesco Prime e American Express. Agora respondam-me: qual é o pobre brasileiro que tem conta Bradesco Prime e cartão de crédito da American Express?? Mesmo que eu me acabe para conseguir dinheiro para comprar um ingresso, eu não poderei comprá-lo porque eu não sou correntista de um banco e muito menos cliente do outro.

É por isso que eu fico furioso da vida toda vez que alguém fala mal do pagodão e do arrocha (ritmos musicais bastante difundidos entre os moradores de periferia de Salvador) na minha frente. Voo - e voarei - em cima de qualquer um que disser que isso é "baixaria", "zoada", que essas músicas "não tem letra", "não dizem nada", e consequentemente que "pobre só gosta dessas porcarias mesmo". Ora, bolas!! Os pobres também têm o direito de se divertir. E como não possuem condições de gostar "do que é bom", criam os seus próprios divertimentos. Os pobrs curtem o pagodão e o arrocha porque são produções culturais que eles podem consumir. Os CDs podem ser comprados em qualquer banca de camelô da cidade (eu sou totalmente a favor dos camelôs), e as apresentações são bem mais baratas. O preço do ingresso custa em média R$15, casadinha R$20. Junta-se dez de um, dez de outro, e vamos lá.

Se querem que os pobres gostem de música clássica, coloquem a Orquestra Sinfônica da Bahia para fazer apresentação nos bairros pobres da cidade; se querem que a "vil-canalha" goste de balé, coloquem a companhia de balé de Rosana Abubakir para fazer apresentação no subúrbio ferroviário; se querem que os pobres gostem de Chico Buarque, Paulinho da Viola e afins, coloquem os CDs a um preço mais baixo que com certeza essas pessoas comprarão. Fica fácil criar toda sorte de meios para impedir que os pobres gostem desse tipo de cultura, e depois dizer que o brasileiro "não dá valor aos bons artistas nacionais". Como é possível dar valor a uma coisa totalmente desconhecida?

Só à guisa de ilustração, uma menina moradora de Paripe (bairro do subúrbio ferroviário e totalmente esquecido pelos poderes públicos) começou a treinar balé numa sala sem o piso adequado, sem espelho, com sapatilhas emprestadas, com barras improvisadas, e apesar dessas e outras dificuldades conseguiu uma vaga no Balé Bolshoi de Santa Catarina. Se ela mandar bem lá em SC, será selecionada para o Balé Bolshoi da Rússia. Acredito que muitas outras meninas do bairro também poderiam obter o mesmo sucesso se tivessem condições adequadas para treinar.
Esse é o mesmo argumento usado por aqueles que dizem que "brasileiro não gosta de ler". Será mesmo? Livros custam muito caro nesse país!!!! É praticamente impossível encontrar um livro que custe menos que trinta reais. Ao ouvir essa constatação, esses canalhas dizem que isso não é desculpa porque "existem bibliotecas públicas acessíveis a quem não tem condições de comprar livros". Eu pergunto: qual é o tempo que uma pessoa que sai de casa às 5h da manhã para trabalhar e retorna às 22h tem para ficar dentro de uma biblioteca pública lendo alguma coisa? Se os livros fossem mais baratos, essas pessoas poderiam comprá-los e lê-los em casa nos poucos momentos de folga.

É o que tenho a dizer.


Até mais ver.

terça-feira, 17 de março de 2009

Estreando minha vida de blogueiro.

Olá, pessoal!!

Finalmente eis-me aqui. Depois de tanto tempo lendo, apreciando, repudiando e recomendando (não necessariamente nessa mesma ordem) blogs alheios, tomei a coragem necessária para criar o meu blog. Procurarei - na medida do possível - usar esse espaço para discutir, desabafar, problematizar, contar piadas, "causos", tragédias, alegrias... enfim, escreverei. O resultado, eu verei depois.

Quero registrar aqui o incentivo dado por Ana Paula Schantz ("de Porto Alegre para o mundo")para entrar nesse (sub)mundo dos blogueiros (é, minha cara! Demorou, mas saiu). O convite para entrar nessa vida veio há um certo tempo, mas não aceitei o convite logo de cara porque não me senti confiante. Mas agora não dá mais para escapar. Estou nessa para o que der e vier.

Por enquanto é só. Assim que surgir alguma ideia na mente, darei o ar da graça por essas paragens.

Até mais ver.