domingo, 19 de abril de 2009

O Aprendiz

O que eu vou relatar aqui pode parecer um pouco atrasado (depois da internet, nove dias parecem noventa anos), mas o conteúdo do texto é mais atual do que nunca.

Assisti ao episódio de estreia do Aprendiz 6 - Universitário, exibido no dia 9 de abril, comandado por Roberto Justus. Para minha surpresa, dentre os "aprendizes" havia duas pessoas fenotipicamente pretas: Guilherme, estudante de Comunicação, de São Paulo, e Mariana, estudante de Ciência da Computação, do Rio de Janeiro.

Era possível perceber na cara dos demais (todos brancos de classe média-alta) que eles não estavam contentes com a presença de Guilherme entre eles. Saquei logo de cara que o pessoal não desperdiçaria a primeira oportunidade de fritá-lo. Uma das participantes, de nome Stephanie Paris, foi a que mais demonstrou insatisfação com Guilherme, e por isso fez de tudo para que ele fosse chutado para fora do programa.

Como se não bastasse esses fatores, o cabra ainda deu todos os vacilos possíveis: não demonstrou empenho nas provas, estava visivelmente desconcentrado (tanto que esqueceu de fazer um pagamento importante), escreveu uma palavra errada por não dominar bem o inglês (ao invés de escrever "lounge" ele escreveu "loundge") e para piorar a situação estava cantando e batucando dentro do carro enquanto as outras participantes (dentre elas a citada Stephanie) estavam conversando com os demais integrantes da equipe pelo telefone. E olhe que ele foi encarregado de encontrar os lugares onde a equipe fecharia negócios necessários ao cumprimento da tarefa.

O clima de complô ficou evidente na sala de reunião, na qual os representantes da equipe perdedora devem explicar os erros cometidos durante a tarefa e aquele considerado o maior responsável pelo insucesso é demitido por Justus. Todos em uníssono jogaram a responsabilidade da derrota na fraca atuação de Guilherme (como se ele tivesse sido o responsável único pelo fiasco), tanto que a líder da equipe chegou a dizer que "ele demonstrou ser totalmente dispensável para equipe". Ela foi repreendida por Justus ao dizer isso, mas no final das contas fez o que todos os membros da equipe queriam: demitiu Guilherme do programa.

Trabalho em três cursinhos pré-vestibulares comunitários aqui em Salvador (frequentado majoritariamente por estudantes pretos, pobres, periféricos e suburbanos), e portanto usei esse exemplo em sala de aula para fazer uma analogia com o momento que eles estão vivendo, na esperança de que isso lhes ajudasse a pensar sobre o que estão buscando na vida. Desnecessário dizer que isso também serve para mim, uma vez que eu não sou melhor do que ninguém; também cometo erros, e luto diariamente comigo mesmo para não repeti-los.

É notório que a universidade não é um campo vazio dos preconceitos existentes na nossa sociedade: racismo, sexismo, homofobia, dentre outros. Por conta disso, é lógico que os pretos, pobres e favelados são pessoas indesejáveis dentro do espaço universitário (vide as forças organizadas contra a implantação do sistema de cotas nas universidades brasileiras). Diante disso tudo, é importantíssimo que nós tenhamos cuidado redobrado com a nossa postura na universidade e posteriormente no mercado de trabalho.

Nada de brincadeiras fora de hora. Nada de dar vacilo perto de pessoas que estão esperando o primeiro mole nosso para nos foguetar. Não estou dizendo que nós não devemos rir, contar piada, descontrair, mas tudo tem de ser feito no local e momento adequados. Na hora de falar sério, temos de ser sérios e sobretudo respeitar os costumes de cada lugar. Deixemos o riso, a gargalhada alta, as piadas e todas as outras manifestações de descontração para quando estivermos no bar com os amigos tomando uma cerveja, mas na hora em que estivermos na sala de aula da universidade ou no ambiente de trabalho devemos esquecer isso tudo. Esses locais têm as suas regras, as suas leis e os seus códigos específicos, e nós devemos respeitá-los se quisermos permanecer lá.

Parafraseando o grande (e para mim imortal) Milton Santos, nós somos pretos, pobres, favelados, periféricos e suburbanos, e por isso temos de ter muito cuidado e atenção com o nosso comportamento (a maneira de falar, o uso de gírias, as nossas roupas, os nossos hábitos à mesa e principalmente com a nossa aparência), pois qualquer mínimo equívoco que cometermos será suficiente para justificar todos os preconceitos existentes sobre as pessoas supracitadas.

É claro que não existe relação alguma entre o tipo de cabelo e a competência profissional de uma pessoa, mas também não se pode negar que os empregadores e demais pessoas nos julgam pela aparência. Em vista disso, nem tentem procurar emprego com o cabelo cheio de tranças, com roupas "alternativas", cheio de penduricalhos no pescoço e nos braços, pois tenham certeza de que vocês serão eliminados logo de cara.

Não me interpretem mal. Também sou preto, pobre e favelado, e falo isso porque também tive de cortar o meu cabelo para procurar emprego. Fiz isso com a maior tristeza do mundo, mas sabia que escola alguma daria emprego a um professor com um cabelo á la Don King. A corda só arrebenta do lado do mais fraco, e infelizmente o lado mais fraco é o meu.

Um comentário:

  1. Isso aconteceu com as mulheres durante os anos 80. Não é coincidência que até o corte das roupas femininas fossem masculinos. Mas passados 20 anos e com a consolidação das mulheres no mercado de trabalho, isso vem mudando e se tem dado o direito às mulheres de serem mulheres dentro de seus cargos.
    Ainda é um universo muito masculino, mas isso está mudando.
    Acredito que com os negros vá acontecer o mesmo. A partir do momento que forem tendo mais oportunidades, como acesso a universidade - e por isso as cotas têm papel fundamental -, e mais visibilidade, serão menos cobrados por coisas idiotas como visual "inadequado" para o mercado de trabalho.
    Espero que não demore 20, 30 anos como no caso das mulheres.
    Afinal, deveríamos ser respeitados por nosso currículo profissional e não por nossa aparência!

    ResponderExcluir