terça-feira, 11 de junho de 2013

A representação das pessoas negras nas novelas: algumas considerações

Vamos falar de novela. Acabei de ver na internet uma notinha a respeito de críticas que estão sendo feitas à novela Amor à Vida, exibida pela Rede Globo no horário das 21h. Diz a nota que os e as internautas não estão gostando nem um pouco de ver que não há nenhum ator e nenhuma atriz negras na trama. Há quem diga que “não entende por que há personagens gays, mas não há personagens negras e negros”. Já outro diz que “A Globo mantém o seu racismo numa novela sem atores negros”. Passemos adiante.

Eu também fiquei muito incomodado com isso, além de não ter gostado do enredo da novela. Fiz um esforço para assistir aos dois primeiros capítulos, mas a coisa não me agradou nem um pouco. Tentei assistir a mais alguns, mas perdi a paciência principalmente ao ver as cenas da personagem Valdirene, interpretada por Tatá Werneck. A personagem é muito sem graça e a atriz parece que ou não entende muito bem da coisa ou ainda está meio perdida e não conseguiu se localizar. A minha opinião é a de um telespectador, portanto eu deixarei as críticas aos detalhes mais específicos para quem entende do assunto.

O diretor de cinema Joel Zito Araújo, uma das maiores autoridades brasileiras sobre o negro nas novelas, que assina obras como o documentário A Negação do Brasil e Raça, este último em cartaz nos cinemas, manifestou-se através do seu perfil no Facebook a respeito da novela citada acima. Disse ele que:




Por conta dessa declaração, eu resolvi dialogar com ele (vejam só o tamanho da minha pretensão). Penso que a novela Lado a Lado não foi produzida porque a Rede Globo se tornou mais progressista e engajada na superação das desigualdades sociorraciais no Brasil (o que esperar de uma emissora comandada por Ali Kamel?), e sim como uma maneira que a Central Globo de Produção encontrou de desviar a atenção e calar a boca do movimento negro. Pois é bom lembrar que esta novela foi ao ar justamente no momento em que as críticas à personagem Adelaide, interpretada por Rodrigo Sant'anna no Zorra Total, estavam ficando cada vez mais acintosas e contundentes.


Mulher, negra, pobre, mal-vestida, que "fala errado", desdentada, e que só se apresenta de maneira ridícula, vergonhosa e repugnante. Se isso não é uma agressão às mulheres negras desse país, o que é então? Se quiserem entender mais sobre esse tipo de "humor", veja Bamboozled - A Hora do Show.

Isso é tão procedente que a Globo escalou ninguém menos do que Lázaro Ramos para ser o protagonista da trama, e o colocou para contracenar com outra grande atriz brasileira que é Camila Pitanga e outro grande ator que é Milton Gonçalves - que dispensa comentários.

Ramos é o mesmo ator que comanda o Programa Espelho, exibido toda segunda-feira no Canal Brasil às 21:30h, e que já levou à sua cadeira de entrevistas referências do movimento negro na atualidade a exemplo do ex-deputado Carlos Alberto de Oliveira, o Caó, autor da lei 7.716/89, que tipificou o racismo como crime inafiançável e imprescritível, e que, em sua homenagem, foi batizada como Lei Caó; o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa; a suplente de vereadora e pedagoga Claudete Alves, autora do livro Virou Regra?, em que faz uma dura crítica ao preconceito dispensado às mulheres negras no mercado matrimonial; a filósofa, militante do movimento de mulheres negras e presidente do Instituto Geledés, Sueli Carneiro; o etnólogo cubano Carlos Moore, autor dos livros Racismo e Sociedade e Fela: Esta Vida Puta, biografia autorizada do cantor e ativista social nigeriano Fela Kuti; a escritora mineira Ana Maria Gonçalves, autora do livro Um Defeito de Cor, que é uma das melhores representações ficcionais da escravidão no Brasil; e Abdias do Nascimento, maior referência da luta antirracista no Brasil, fundador da Frente Negra Brasileira e do Teatro Experimental do Negro, e autor do livro O Genocídio do Negro Brasileiro.

Além disso, Ramos costuma citar como dicas de leitura várias obras basilares para a compreensão do racismo como fator estruturante e regulador das relações sociais no Brasil, a exemplo de A Discriminação do Negro no Livro Didático, da pedagoga Ana Célia da Silva; Da Diáspora, de Stuart Hall; o Relatório Anual das Desigualdades Raciais, produzido pelo LAESER (Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que tem em seus quadros o economista Marcelo Paixão; o Mapa da Violência 2012, organizado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, dentre outras.

Em suma, a Central Globo de Produção sabia muito bem que Lázaro Ramos era o homem certo para protagonizar uma novela como Lado a Lado. Afinal, os altos generais da Globo sabem quem Ramos é e principalmente de onde ele veio. Acrescente-se a isso as personagens Tia Jurema, interpretada por Zezeh Barbosa (o primeiro trabalho respeitável feito por ela, visto que as personagens concebidas por Miguel Falabella sempre foram horríveis, vide a Condessa Duvivier da novela Aquele Beijo, exibida em 2011); Caniço, interpretado por Marcello Melo Jr. (as cenas de luta entre Caniço e Zé Navalha, interpretado por Ramos, ficarão eternamente na minha memória); Chico, vivido por César Mello (que interpretou o episódio do “pó de arroz”, em que o jogador Carlos Alberto, negro, teve de se pintar de branco para ser aceito no time do Fluminense em 1914), dentre outros. As crônicas escritas por Cidinha da Silva analisam muito bem o desenrolar dessa novela. Entrem no blog dela e procurem. Vocês não vão se arrepender.

Depois de ter deixado a galera extasiada, tudo voltou ao que era antes.

Essa estratégia funcionou tão bem que no mesmo ano em que a novela Lado a Lado foi ao ar e, consequentemente, a população negra ficou radiante de felicidade ao se ver representada na telinha, a Rede Globo, em uma atitude de completo deboche às manifestações dos grupos organizados na luta contra o racismo, produziu uma série de DVDs com os melhores momentos da personagem Adelaide no tal "humorístico". E o mais surpreendente de tudo é que os mesmos grupos que estavam combatendo a tal personagem parecem que não viram (ou, se viram, não deram a menor importância) essa chacota pública que a Vênus Platinada fez com as nossas reivindicações.

Debochar da nossa cara é algo que a Globo faz com maestria. Vale dizer que o DVD de Adelaide foi lançado em novembro de 2012. Justo o mês de novembro, que, depois de muita luta, foi consagrado como Mês da Consciência Negra. A mesma coisa já tinha sido feita em novembro de 2010 numa cena da novela Viver a Vida, em que a personagem Tereza Saldanha, interpretada por Lília Cabral, tascou uma sonora bofetada na cara da protagonista Helena, vivida por Taís Araújo (a primeira Helena negra de Manoel Carlos), numa cena extremamente humilhante em que Helena ficou de joelhos na frente de Tereza implorando por perdão, e recebeu como resposta o bofetaço no rosto. Essa cena foi exibida em pleno dia 20, que é o Dia da Consciência Negra. Se isso não foi uma provocação descarada, eu não sei de mais nada.



Para finalizar: além de calar a boca do movimento negro, a Rede Globo abriu um precedente favorabilíssimo. Pois da próxima vez em que a referida emissora for acusada de racismo, podem ter certeza de que os seus altos oficiais virão a público com o mesmo argumento de sempre: "Racistas, nós? Que absurdo! Nós até produzimos recentemente uma novela com um elenco majoritariamente negro, com um ator negro como personagem principal. Calúnia!! Os patrulheiros do politicamente correto não nos deixam em paz!!!"

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Ditadura de esquerda ou ditadura de direita: qual é a melhor?

Semana passada, eu dei uma aula sobre Revolução Cubana. Inevitavelmente, eu tive de falar sobre o líder máximo do movimento que derrubou a ditadura de Fulgencio Batista e instalou o socialismo em Cuba: Fidel Castro. Ato contínuo, eu disse que tenho as minhas críticas ao modo como Fidel conduziu os destinos de Cuba após a vitória da revolução, não gostaria de ser governado por um Fidel Castro por nada nesse mundo, mas eu devo reconhecer que houve mudanças diametrais nas condições de vida do povo cubano após a chegada dele ao poder: a medicina cubana é referência no mundo inteiro, foi implantado um programa de erradicação do analfabetismo, dentre outras coisas.

Ao ouvir isso, uma estudante minha começou a espinafrar Fidel com o argumento de que ele comandou Cuba com mão de ferro, eliminou sumariamente os seus inimigos reais e imaginários, ficou no poder durante 49 anos e passou o posto para o irmão dele quando estava muito doente. E disse, para arrematar, que os avanços sociais não atenuam a conduta dele como ditador e que é melhor viver aqui no Brasil, pois nós vivemos numa democracia e por conta disso nós temos o poder de escolher os nossos governantes a cada quatro anos.

Quando eu disse que a ditadura em que vivemos aqui é muito pior do que a de lá, uma vez que os nossos governantes não passam de marionetes do grande capital internacional, ela discordou e disse que, ainda assim, é melhor viver no Brasil do que em Cuba.

Não vou me alongar no mérito da questão, até porque eu nem sou tão versado na história de Cuba e da Revolução Cubana quanto pareço. Eu só espero que ela assista ao documentário abaixo para saber que o mundo capitalista vive uma ditadura muito mais cruel, cínica e sangrenta do que o povo cubano.

Quem manda de fato no mundo são pessoas e grupos que não aparecem, que não mostram a cara, e por isso nós nem sabemos quem são. O documentário abaixo elucida muito bem isso ao dizer como age a instituição financeira mais poderosa do mundo, o banco Goldman Sachs.

Confiram, se quiserem, e tirem as vossas próprias conclusões.

Goldman Sachs - O Banco que dirige o Mundo - Documentário Completo from Documentários e Filmes on Vimeo.

domingo, 14 de abril de 2013

Epopeia de um homem que só quer viver e trabalhar em Salvador - mas tá difícil!


Como se diz na gíria, parece que eu pisei em rastro de corno na sexta-feira passada. Eu não me lembro de ter enfrentado dificuldades tão grandes para chegar ao trabalho como neste dia. Lembro de uma, mas quando estava voltando para casa. Parece mentira ou exagero da minha parte, mas eu vou contar a história aqui e sintam-se à vontade para tirar as vossas conclusões.

Acordei predisposto a fazer uma megafaxina, pois a casa onde moro estava uma zona. Só que antes eu tive de corrigir um texto escrito pela digníssima, que ela pretendia publicar no blog dela - e publicou. Assim que eu terminei, eu devolvi o texto para ela com as correções e peguei o garrafão de água vazio para comprar outro cheio no bar de Alemão. Pretendia iniciar a faxina com a lavagem do banheiro (que estava fétido) assim que retornasse. Entretanto, quando estava me preparando para sair de casa, a digníssima recebeu uma ligação do irmão dela para dizer que o pai dela havia passado por um problema pessoal (que não vem ao caso mencionar aqui). Ao saber disso, a digníssima tresloucou. Desligou o computador de qualquer jeito, pegou a carteira de identidade e o celular e saiu em direção ao local onde o pai dela estava. Eu tive de sair com ela, pois seria muita insensibilidade da minha parte deixá-la sair sozinha naquele estado de nervos.

Felizmente, não foi nada grave. O problema foi resolvido rapidamente, e o pai dela voltou para casa sem que nada de mais grave tivesse acontecido.

No caminho de volta para casa, passamos em frente a uma loja de roupas e a digníssima viu uns vestidos que chamaram bastante a atenção dela. Entramos na loja. Ela pegou três (um vermelho, um amarelo e um azul) e pediu a minha opinião. Só que nesse exato momento, eu recebi uma ligação no celular e parei para atender. Como ela viu que eu estava ocupado, ela preferiu decidir sozinha qual vestido comprar. Optou pelo azul. Só vi o vestido em casa, depois que ela o lavou e o colocou no varal para secar. Gostei da escolha. Azul é uma cor que me agrada bastante.

Lavei o banheiro. Quando terminei, já havia passado das duas da tarde. Sujo, com o corpo cheirando a água sanitária e sabão em pó e o estômago roncando de fome, saquei que o meu plano de sair de casa às 15h havia ido por água abaixo. Mas acelerei. A digníssima improvisou uma comida com celeridade para eu não sair de casa com fome. Tomei um banho rápido, almocei com ela, arrumei minhas coisas, vesti a roupa e saí. Já era quase 15:30h quando eu botei o pé fora de casa rumo a Mar Grande, onde dou aula.

Tive de andar até a Rótula da 10 para pegar um buzu, pois não quis me arriscar a esperar um dentro de Fazenda Grande 2 (tudo isso em Cajazeiras, bairro onde moro). Andei, andei, e não passou nenhuma marinete que servisse para mim. Cheguei à Rótula às 16h. Cerca de dois minutos depois, passou um Estação Mussurunga da empresa BTU. Seria uma alternativa boa, pois esse buzu não entra em Fazenda Grande 3 nem em Vila Verde e, lá em Mussurunga, eu pegaria um Barra 1 (da empresa Ondina, código de linha 1051) e chegaria ao Comércio numa boa. Mas eu desisti por acreditar que ficaria retido no engarrafamento da Paralela (que começa no Shopping Paralela e vai até a entrada do Imbuí), o que seria um obstáculo ao meu plano de chegar ao Terminal da Lancha, no Comércio, a tempo de pegar a lancha de 17:30h. Aproximadamente dez minutos depois, apareceu um Estação Pirajá R1, da empresa Barramar. Peguei o buzu, pois queria sair logo dali. O motorista dirigiu numa lerdeza desgraçada. Parava em todos os pontos e parece que ganhava por passageiro. A vontade que me deu foi de levantar e meter os meus dois pés na cara dele, mas achei por bem não fazer isso porque seria pior, poderia causar um acidente mais grave e fatalmente eu não chegaria a tempo. Contive-me.

Desembarquei na Estação Pirajá às 16:39h. Vi que a fila do Barra 1 (da empresa Barramar, código de linha 1335) estava relativamente grande, mas não havia nenhum buzu parado no ponto. Encostou um Lapa. Após alguns segundos, concluí que seria prudente, apesar de desgastante, pegar logo aquele ônibus, descer na Lapa e andar (ou melhor, correr) até o Terminal da Lancha. Se eu ficasse lá à espera do famigerado Barra 1, certamente chegaria atrasado. Novamente, o motorista estava dirigindo com uma lerdeza que parecia que estava levando o pai dele com desvio de coluna dentro da marinete. Que porra era aquela? A BR livre, o Acesso Norte livre, e ele dirigindo naquela lentidão! Parecia que ele estava adivinhando que eu estava atrasado e resolveu me sacanear ainda mais. Quando o buzu passou pelo viaduto que liga a Rótula do Abacaxi à Avenida Bonocô, vi o Barra 1 que sai da Estação Mussurunga passando lá embaixo, saindo da Avenida ACM em direção à Rótula do Abacaxi. Pensei na hora: “Está vendo aí? Se tivesse pego o Estação Mussurunga da BTU na Rótula da 10, eu certamente estaria dentro daquele buzu que está passando lá embaixo e chegaria ao Terminal da Lancha mais cedo e com mais tranquilidade”. Mas dane-se! Já estou aqui mesmo, e o jeito agora é dar continuidade ao processo.

O motorista do ônibus que seguia em direção à Lapa deu uma matracadazinha na Bonocô. Não havia ninguém para descer nos dois primeiros pontos, mas ele quis porque quis passar pela faixa da direita para encostar nos pontos. Me contive para não soltar uma porra bem alta. Entrou no Vale do Ogunjá na mesma matracagem. Na Vasco da Gama, então, é que lenhou de vez. A via exclusiva estava livre, mas o safado estava mesmo a fim de me pirraçar. Chegou ao Dique, e havia um pequeno congestionamento. Não sei por que raios, mas aquela sinaleira nunca está liberada quando eu passo por lá. Sempre tenho de esperar os carros que vêm da Fonte Nova passar primeiro para eu passar depois. Um saco!

Desembarquei na Lapa às 17:06h. Prometi para mim mesmo que não entraria mais naquela pocilga (contarei o motivo em outro texto), mas tive de quebrar a promessa hoje por conta da situação. Subi as escadarias correndo, colocando o braço na frente “educadamente” para mostrar às pessoas que eu estava com pressa e precisava passar. Algumas compreenderam – e eu não me preocupei com as que não compreenderam. Subi a escada rolante que dá acesso aos fundos do Colégio Central no mesmo ritmo: colocando o braço, pedindo licença e passando. Tirei a mochila das costas e segurei-a com a mão direita para poder andar com mais velocidade. Não tive paciência para esperar a sinaleira em frente ao IPS (Instituto de Previdência Social) ficar verde para os pedestres, aproveitei um mole dado por um taxista e passei. Ao entrar na transversal que dá acesso à Rua do Paraíso, tomei um tropeço desgraçado, "catei umas fichas" e caí estatelado no chão. Só não bati a cabeça na calçada e quebrei alguns dentes porque estava segurando a mochila com a mão direita, como já disse, e, na queda, a mochila foi parar debaixo da minha cabeça e amorteceu o impacto. Pura sorte. A garrafa com água que eu estava carregando caiu para o lado oposto da mochila. Ao me ver estatelado no chão, uma mulher parou para tentar me ajudar. Eu, rapidamente, botei as mãos no chão, levantei e continuei correndo. A mulher, ao me ver esbaforido, só teve tempo de dizer: “moço, a garrafa está ali”. Eu peguei a garrafa, enfiei-a de novo no bolso lateral da mochila e continuei andando. Nem olhei para a cara da senhora que foi tão solícita comigo ao me ver esparramado no meio da rua, o que denota o quão atarantado eu estava.

Entrei na Rua do Paraíso e passei pela Barroquinha chispando. Tentei subir a Ladeira da Praça correndo, mas não tive fôlego para isso (que falta me faz as minhas corridas matinais). Já era 17:21h. O desespero bateu, pois eu perderia o carro que me levaria a Tairu (que sai da Praça do Duro, em Mar Grande, pontualmente às 18:20h) se não conseguisse pegar a lancha de 17:30h. Andei o mais rápido que pude. Cheguei à Praça Municipal e entrei no Elevador Lacerda. Por sorte, não havia fila. Passei, meti a mão no bolso, tirei os R$ 0,15 necessários para pagar a passagem e parei na porta para esperar o elevador que me levaria à Cidade Baixa. Quando eu estava lá, suando em bicas, todo desgoelado, com a mão esquerda ralada e sentindo a porrada que levei no joelho esquerdo por conta da queda, recebi uma ligação de uma das coordenadoras do Quilombo do Orobu (cursinho pré-vestibular no qual também dou aula) perguntando se eu daria aula lá na sexta à noite. Disse que não. Marcos Paulo, o cabra que faz dupla de área comigo na matéria de CCN (Cidadania e Consciência Negra), assumiu o babado sozinho. Estava azoado, e espero não ter sido grosseiro com Tice, pois ela não merece isso. Se fui, peço desculpas aqui publicamente. Eu não estava em condições de raciocinar.

Finalmente desembarquei do Elevador Lacerda. Cheguei à Cidade Baixa. O relógio marcava 17:25h. Na hora de atravessar a rua, vi que o semáforo em frente ao Mercado Modelo estava marcando 54 segundos para os carros passarem. Não quis esperar. Aproveitei que havia um buzu parado no ponto, avancei, olhei com cuidado, vi que não havia nenhum outro veículo passando por fora, e adiantei. Cheguei ao Mercado Modelo. Passei por dentro mais rápido do que uma bala, dei umas pequenas trombadas na turistada otária que estava no meu caminho, e cheguei ao outro lado. O Terminal estava a alguns metros de mim, mas parecia que estava a anos-luz de distância. Avancei. Consegui chegar à fila. Na hora em que eu estava me dirigindo ao guichê, duas mulheres andando em diagonal atrapalharam involuntariamente a minha passagem. Botei meu braço na frente, passei, tirei o dinheiro do bolso (que, para minha alegria, já estava trocado), passei pelo torniquete e cheguei à lancha. Ufaaaaa!! Que alegria!!!! Consegui pegar a lancha de 17:30!!!!!!!!!

Achei um lugar na popa, e me sentei. Alguns minutos depois, chegou meu amigo e futuro médico Mota, professor de Biologia do Quilombo Ilha. Gritei e sinalizei com o braço para ele me ver e sentar ao meu lado. Ele me viu. Sentou. Fizemos a travessia numa boa, e aproveitei o balanço da lancha para papear um pouco e esfriar a minha cabeça – que estava bastante agitada por conta de tudo o que aconteceu. Afinal de contas, eu não conseguiria trabalhar do jeito que eu estava.

A conversa estava tão boa e agradável que eu esqueci de levantar um pouco antes para não ficar retido no bololô que se forma na saída da embarcação. Quando a lancha atracou em Mar Grande, eu tive de esperar minutos preciosos para conseguir alcançar o lado de fora. Saí. Com pressa. Na minha frente, havia pessoas andando na maior lerdeza do mundo. Ultrapassei duas. Porém, havia outro que, além de andar devagar, era muito parrudo. Tentei duas vezes ultrapassá-lo, mas não consegui. O espaço estava estreito. Quando ele finalmente deu uma inclinada à esquerda, eu passei chispando e, na passagem, tombei no braço direito dele. Ao sentir a porrada, ele pediu desculpas. Eu respondi que “quem tem de pedir desculpas sou eu, pois eu estou com pressa”. O carro para Tairu sai de Mar Grande, como já disse acima, às 18:20h. Consegui chegar às 18:18h. Meu amigo Ademilton, professor de Física, já estava ligando para mim a fim de saber se eu chegaria a tempo ou não. Felizmente (e desesperadamente), cheguei.

Estava com vontade de ir ao banheiro, e pedi ao motorista para parar em frente à casa paroquial, onde funciona o Quilombo Ilha, pois eu não suportaria esperar mais. Fui correndo ao banheiro. Fiz o que tinha de fazer. O carro veio. A porta foi aberta. Eu entrei. Era 18:30h. Eu viajei. Cheguei a Tairu às 18:54h. Ainda bem que Gevaldo já havia deixado tudo pronto para eu entrar e trabalhar numa boa.

Que dificuldade!!!

No dia seguinte, aceitei a sugestão da digníssima e passei o dia na praia com ela. Tomei sol, alguns litrões, papeei e sosseguei um pouco. Afinal de contas, eu mereço. Ainda mais depois de ter enfrentado toda essa epopeia para chegar ao meu local de trabalho no dia anterior.

Tive de (d)escrever toda essa épica trajetória Salvador-Mar Grande para demonstrar minha indignação diante do caos em que se encontra a cidade e dizer que está cada vez mais insuportável viver e sobretudo transitar em Salvador.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Quer que a educação melhore? Faça alguma coisa!


Vi uma nota na internet que me deixou bastante indignado: “Mais de 14 mil alunos de Salvador só terão aulas na rede estadual em abril”. A curta matéria conta o caso de vários meninos e várias meninas que, por conta dos quatro meses de greve da rede pública estadual baiana, só voltarão às aulas no dia 1º de abril de 2013 e, por conta disso, terão de ficar mais de noventa dias parados em casa sem fazer nada.

Tenho duas coisas a dizer sobre isso: ninguém é inocente nessa parada. Todas as pessoas, guardadas as devidas proporções, têm sua parcela de culpa e deverão assumir as suas responsabilidades se quiserem mesmo resolver o caso. Dou ênfase a isso porque não adianta jogar a culpa no governo, pois é chover no molhado dizer que as autoridades não estão nem aí para a educação pública. O governador, o secretário de Educação e os deputados baianos estão pouco se importando se os e as estudantes da rede pública ficarão mais de três meses sem ter o que fazer por uma razão bem simples: os filhos e netos deles não estudam lá. Aconteça o que acontecer, todos eles dormirão com a certeza de que os seus filhos estão sendo muito bem treinados para sucedê-los no poder e continuar dominando os subalternizados. É até bom que filho de pobre não estude mesmo, pois, se essas faveladinhas virarem doutoras, quem vai lavar minhas cuecas?

Certa vez, li um texto que dizia que o senador Cristóvam Buarque elaborou um projeto de lei para obrigar os políticos a matricular os filhos deles em escolas públicas. Ao conversar sobre isso com um vizinho, ele disse que o senador Buarque era um babaca, otário e desocupado por pensar uma coisa ridícula como essa. “Tá vendo que um projeto desse nunca vai ser aprovado?”, disse o meu vizinho. E eu rebati: “o senador Buarque não é babaca coisa nenhuma. Foi você que não sacou o detalhe da jogada. Ele sabia muito bem o que estava fazendo. O objetivo dele era ver se as pessoas perceberiam por que os políticos não se interessam em melhorar os níveis das escolas públicas brasileiras, e se haveria alguma reação contra esse descaso”. Porém, quem ficou sabendo disso? E para as pessoas que souberam, quem deu importância ao caso?

A situação da educação no Brasil está do jeito que está porque as pessoas que mais deveriam pressionar por uma educação pública de qualidade são as que menos pressionam. Ninguém se importa com educação! Afinal, qual foi o pai ou a mãe de estudante que foi à porta da governadoria do estado exigir que o governador Jaques Wagner negociasse com a categoria? Nenhum! Pelo contrário, todas essas pessoas ficaram paradas em casa, xingando as professoras de preguiçosas, vagabundas e desocupadas que armaram todo esse fuzuê para não trabalhar.

Como se isso não bastasse, muitos pais e mães, ao invés de defender a escola pública, apoiar o professorado e reconhecer como justas e fundamentais as reivindicações da categoria, foram às portas das escolas particulares pedir bolsas para os seus filhos. Lembro de uma matéria publicada em um jornal da cidade sobre uma mulher cuja filha estudava no Colégio Estadual Thales de Azevedo. Em vez de protestar contra o descaso do governador e se juntar ao professorado para pressionar o governo, ela escreveu uma carta endereçada à diretoria de uma escola particular parede-meia com a já citada escola estadual para pedir uma bolsa para a filha dela. O jornal ainda publicou a carta em que a autora disse que estava fazendo aquilo porque não aguentava mais ver a filha dela em casa sem estudar. Afinal, a menina tinha desejo de estudar Medicina, o ENEM estava se aproximando e ela não estava sendo preparada para isso. E finalizou a carta dizendo que essa atitude pode parecer um pouco egoísta, mas "cabe a cada um encontrar as suas formas de lutar".

Não sei se essa senhora foi exitosa em sua investida, mas, na hipótese de ela ter logrado êxito, você acha que ela se preocuparia com a situação das outras adolescentes que ficaram sem aula? Você acha que ela se preocuparia com quem não conseguiu bolsa em alguma escola particular? Se ela não se mobilizou antes, você acha que ela se mobilizaria depois? “A minha filha está estudando para fazer Medicina, portanto não me interessam os outros. Eu sou mãe da minha filha, e não das filhas das outras pessoas. Quem está sem aula que se dane! Eu dei o meu jeito, portanto elas que deem o jeito delas também”. Pimenta no rabo das filhas dos outros é refresco.

A outra coisa que eu tenho a dizer é a seguinte: é assim que se inicia o extermínio da juventude negra: fazendo de tudo para os e as estudantes ficarem fora da escola, perderem o ritmo de estudo e saírem às ruas em busca do que fazer para vencer o tédio e a ociosidade. Alguns inevitavelmente viram escravizados do subemprego que lhes paga uma mixaria que é toda consumida com a compra de celulares vagabundos e tênis de marca. Outros se tornam presas fáceis da bandidagem e, quando isso acontece, o mesmo estado que negou a essas pessoas todas as chances de sair daquele cenário de miséria e carência de perspectivas manda a polícia fazer o serviço sujo de puxar o gatilho da .40 e estourar os miolos delas, sob o argumento de estar combatendo a criminalidade.

E depois ainda querem que eu apoie essa excrescência jurídica chamada redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Sou terminantemente contra! Invista em educação e incentive o protagonismo juvenil que o contingente de soldados do tráfico diminuirá. Há vários pretos favelados por aí que só precisam de uma oportunidade para se tornar engenheiros da Aeronáutica, médicos neurocirurgiões, desembargadoras, ministras do STF, arquitetos, biólogas, oficiais das Forças Armadas, psicólogas, dentre outras coisas. Mas as poucas esperanças de vida são aniquiladas quando esses meninos e essas meninas vão à escola e não têm aula, não encontram a biblioteca aberta, encontram professores desinteressados que reclamam das péssimas condições de trabalho e descontam as suas frustrações em cima de quem é mais vítima do descaso das autoridades públicas do que eles. Afinal de contas, é bem mais fácil descontar a raiva em cima de quem é mais fraco do que peitar os mais fortes e poderosos em busca de uma solução para o problema.

Isso foi só um desabafo. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Os grandes ícones da luta antirracista são importantes - e você também.

Mais um texto que saiu, como bem disseram Caju e Castanha, igual a caldo de cana: feito na hora. Começou como um simples comentário lá no Facebook, mas, à medida que fui escrevendo, saiu tanta coisa que eu resolvi elaborá-lo um pouco mais e publicá-lo aqui no blog.


Recebi na minha página inicial uma imagem alusiva ao Mês da Consciência Negra com a mensagem: “Nesse mês da Consciência Negra, mostre que você é a favor da igualdade. Troque sua foto por um ícone da luta contra o racismo no mundo!”.



 Jo Serra, parceira de caminhada que vive em Brasília, deu uma resposta que eu achei boa, e foi a partir daí que veio a ideia de escrever esse texto. Disse ela: Eu vou deixar a minha foto, para mostrar que todo negro, ou pardo, faz parte da luta. Mesmo que não queira...”. Discordo em parte. Eu não acho que todo negro ou pardo faz parte da luta, mesmo que não queira. Afinal de contas, como disse Ana Maria Gonçalves, militância não é coisa para qualquer um. Só entra nessa quem quer, pode, tem tempo, paciência e sobretudo frieza para aguentar as piores misérias e escrotices da vida, recuperar o vigor e seguir em frente. Quem não está a fim nem entra. E quem não tem disposição para suportar o porradão e trabalhar sem um centavo pede para sair no dia seguinte (isso se ela não for embora imediatamente). Além do mais, há muitos negros e negras por aí que não estão engrossando as nossas fileiras, não se interessam pelo combate ao racismo (e eu não falo só das pessoas que nunca leram Racismo & Sociedade, de Carlos Moore, e Pele Negra, Máscaras Brancas, de Frantz Fanon) e que, com a maior desfaçatez do mundo, dão declarações públicas contrárias à nossa causa (após terem bebido na nossa fonte) e passam para o outro lado a fim de vender o serviço a pessoas e grupos que sempre se dedicaram a nos ferrar (só não vou citar nomes). Afinal de contas, o caráter de uma pessoa não tem relação alguma com a cor da pele.

 
 Marcus Garvey, em uma de suas mais conhecidas declarações, disse que não queria levar todos os negros de volta para a África porque havia muitos que não eram boas pessoas aqui, e seguramente não seriam boas pessoas lá. E eu penso da mesma forma: eu não quero toda e qualquer pessoa dentro das organizações de luta antirracista, pois há muita gente que não é boa pessoa do lado de fora, e com certeza não será boa pessoa do lado de dentro. Nem sempre quem está do nosso lado é nosso amigo.


Mas concordo integralmente com a primeira parte do comentário, quando ela disse que vai deixar a foto dela mesma com vistas a mostrar que ela também é importante nessa luta. Apoiadíssimo. Eu vou fazer a mesma coisa. Afinal de contas, os grandes líderes não existiriam se não fossem acompanhados e apoiados pelas pessoas anônimas. Steve Biko, Martin Luther King, Malcolm X e os Panteras Negras, dentre outros, foram assassinados por lutar contra o racismo, mas foram só eles? Eles fizeram tudo sozinhos? E todas as outras pessoas que foram assassinadas antes e depois da morte desses caras, não contam? Essas pessoas não foram importantes para a luta antirracista? 


Todos e todas nós somos importantes nessa guerra, ainda que os nossos nomes não se tornem conhecidos pelo grande público ou fiquem imortalizados nos livros de História. Para mim, isso pouco importa. O que interessa mesmo é ter a consciência de que eu não fiquei impassível diante dos fatos e que, na medida das minhas possibilidades e limitações, fiz algo para mudar esse cenário de horror em que vivemos. E para quem acha isso pouco, eu direi, inspirado em Idelber Avelar, que eu só aceitarei críticas “de quem estiver de baioneta na mão, atrás de uma barricada, lançando um coquetel molotov ou derrubando as portas de um Palácio de Inverno”. Se você não está fazendo nada e se acha no direito de condenar quem está tentando fazer alguma coisa, a única coisa que você terá é o meu desprezo.


Se alguém, futuramente, quando eu não puder pisar mais na avenida e quando as minhas pernas não puderem aguentar, quiser me entrevistar e escrever um livro sobre a minha vida e a minha atuação na militância, será ótimo. A depender da pessoa, dos interesses que ela estiver defendendo e do que ela pretender fazer com as minhas palavras, eu falarei com o maior prazer (ou não). Mas se isso não acontecer, tudo bem do mesmo jeito. Afinal, eu nunca tive (como não tenho) nenhuma pretensão de virar pop star - até porque eu não faço o que eu faço hoje porque acho bonito.


À guisa de conclusão: eu não vou colocar foto de ícone nenhum. A foto que ficará lá no meu perfil será a minha mesmo. Eu também sou importante nessa luta. Eu também faço luta contra o racismo. Isso não significa que eu estou desmerecendo a atuação das grandes figuras, e sim que eu estou valorizando o trabalho de todas as pessoas que, assim como eu, estão anonimamente fazendo o que podem para combater esse câncer instalado na nossa sociedade que é o racismo.


Todas as pessoas que passaram o ano inteiro estudando no Instituto Cultural Steve Biko, no COE-Quilombo, no Quilombo Ilha, no Bahia Street, no Quilombo do Orobu e demais cursinhos pré-vestibulares populares espalhados pelo Brasil são importantes nessa guerra. Vocês, que estão aí contendo a ansiedade para fazer a prova do ENEM, estão lutando contra o racismo ao dizer não a toda uma estrutura social montada para vos colocar nos piores lugares, nos piores empregos e receber os piores salários. Ao resolver encarar a batalha pela entrada na universidade, vocês estão brigando para ter acesso ao que é vosso por direito e que durante muito tempo foi negado. Estamos apenas começando a meter o pé na porta e entrar, pois nada nos será dado de graça.


E podem me chamar de arrogante e presunçoso. Fiquem à vontade.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Os ricos têm medo das cotas?


Recebi uma postagem hoje no Facebook: a imagem de uma parede pichada com a mensagem: “Os ricos têm medo das cotas?” Comecei a escrever uma resposta lá mesmo no Face, mas resolvi desenvolvê-la um pouco mais e publicá-la aqui no meu blog.



Com toda certeza. Afinal de contas, conhecimento é poder. E, por conta disso, ele sempre foi enclausurado nas universidades para usufruto de uma minoria seletíssima.

O racismo não tem nada a ver com ignorância. Esse papo de que as pessoas que estudaram menos tendem a ser mais racistas do que as pessoas que estudaram muito não se sustenta na prática. Há médicos, advogados, psicanalistas, professoras, dentre outras, que estudaram muito, têm mestrado, doutorado, Ph.D. na Universidade de Paris e o caralho e que continuam acreditando que o negro é inferior ao branco. Seria desnecessário – e enfadonho – citar exemplos.

Além do mais, devemos lembrar que as teorias racistas, que afirmavam a pretensa inferioridade natural do negro, bem como as ideias que diziam que a mulher era intrinsecamente mais débil e frágil do que o homem, o que a tornava incapaz de votar e trabalhar fora, por exemplo, foram criadas na universidade. Médicos, biólogos, filósofos e demais pessoas pertencentes às elites intelectuais do seu tempo criaram as suas ideias de dominação e usaram a legitimidade acadêmica para dar mais veracidade às suas teorias odiosas. O racismo é uma invenção de elites intelectuais, não de pessoas ignorantes e iletradas. Como disse Carlos Moore em Racismo e Sociedade, o racismo é um sistema de poder, não um sentimento pessoal isolado.

E as cotas, apesar de ser uma medida incompleta e insuficiente para corrigir as abissais desigualdades sociais brasileiras, estão provocando tanto furor nos círculos mais conservadores da nossa sociedade justamente por isso: por possibilitar aos grupos subalternizados, excluídos e invisibilizados o acesso a esses conhecimentos, que nos permite combatê-los precisamente no lugar em que são criados. De posse dessas ferramentas, nós passaremos a conhecer o funcionamento das engrenagens sociais que regem as nossas vidas e, ato contínuo, começaremos a pensar em transformá-las. E é isso que as elites brasileiras não querem: que a ordem social mude; que os lugares reservados historicamente aos seus filhos e netos não sejam ocupados pelo filho da empregada ou pela neta da lavadeira. Como bem disse Malcolm X, sem racismo não há capitalismo. E é por conta disso que os ricos têm, sim, medo das cotas. 


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Dia do Professor

Esse texto foi escrito pela minha tia Antônia, e colocado no meu perfil do Facebook. Resolvi postá-lo aqui para que mais pessoas possam ver a melhor das homenagens que eu recebi hoje. 


O DIA DO PROFESSOR
Se não é fácil para um pai ou uma mãe ser professor do seu próprio filho em sala de aula repleta de outros alunos, não deve ser fácil para um filho ser professor do seu pai ou da sua mãe nas mesmas circunstâncias.
Entretanto conhecendo o seu caráter sei muito bem, que no momento em que você dava às suas aulas não via entre os seus alunos a fugura da sua mãe, como mãe e sim a de 
uma aluna com as mesmas dúvidas e expectativas inerentes a todos os outros alunos.
Portanto é com muita emoção que eu lhe agradeço por você juntamente com os seus colegas ter contribuído para a aprovação da sua mãe, aos cinquenta e sete anos e de todos os outros que foram aprovados no processo seletivo 2012 da Universidade Federal da Bahia e em outras Universidades ou Faculdades; principalmente aqueles menos favorecidos socialmente, que são obrigados constantemente pelos vícios de uma sociedade perversa e rotulista a recolher a sua voz e os seus direitos a insignificância imposta pelo sistema educacional vigente em nosso país.
Quero lhe dizer também que hoje aos cinquenta e oito anos e tendo sido aprovada no curso de letras da Faculdade São Luís de França, em Aracaju-Se, que toda vez que estou lendo ou escrevendo algum texto, mesmo com a distância que nos separa eu sinto um orgulho tão grande em saber que sou sua tia, e é este orgulho que sempre me deu forças para continuar e chegar aonde cheguei.
Mais uma vez agradeço ao meu sobrinho e professor Rogério Luis, por tudo que você já fez e por tudo que eu sei que você e seus colegas ainda vão fazer pela educação do nosso país.
Feliz dia do professor,
Da sua tia Antonia.