quarta-feira, 30 de março de 2011

Salvador, 462 anos. Comemorar o quê?

Ontem, Salvador fez aniversário: 462 anos. Não publiquei o texto no dia 29/03 porque não pude escrevê-lo em tempo hábil. Mas, como diz o costume, o que vale é a intenção. Como eu moro e transito na cidade todo dia, não faz muita diferença o fato de ter publicado os meus escritos um dia depois. Eu acho.

Esse papo de exaltar as belezas da cidade, as praias paradisíacas, o carnaval, a culinária, a religiosidade (de uma forma bastante estereotipada, diga-se de passagem), a terra do axé, já deu. Não estou aqui para falar disso. Afinal de contas, eu não sou agente de turismo.

O que eu quero mesmo é fazer uma homenagem ao povo dessa cidade. Não à parcela branca e rica que odeia e repudia a herança cultural africana, que acha que ser preto só é bonito no Carnaval (e olhe lá), mas se utiliza dela (e deles) sem o menor pudor para se promover ou auferir algum benefício. Se os “bem-nascidos” cagam para mim, eu também cago (e continuarei cagando) para todos eles.

Quero exaltar as pessoas que ralam todo dia para sobreviver nessa selva. Que saem de casa sem saber se retornarão. Que têm de aguentar tudo o quanto é miséria em nome do sustento próprio e da sua família. Que pegam ônibus lotado todo dia de manhã para ir trabalhar e à noite na hora de voltar para casa. Que, depois de terem sido exploradas o dia inteiro, ainda encontram energias para estudar à noite e sonhar com um futuro melhor. Que vivem num lugar onde os mais ricos ganham vinte e cinco vezes mais do que os mais pobres. Que têm de morar numa cidade onde morrem em média de 25 a 30 pessoas assassinadas por fim de semana – e que há pessoas que acham isso normal. Que têm de driblar as arapucas que o racismo impõe à maioria da sua população, pois a Bahia só é a terra da felicidade nas propagandas da prefeitura e das agências de turismo. Que ouvem dizer que têm o carnaval mais democrático do mundo, mas observam uma minoria curtindo o melhor do luxo enquanto os excluídos têm de acampar na rua durante uma semana para ganhar algum trocado vendendo cerveja e churrasquinho, catando latas e garrafas e segurando corda nos blocos. Que veem um cantor receber R$ 2 milhões para tirar a barba em uma ação promocional de uma marca de barbeadores, enquanto muita gente passa fome. Em que um bloco chega a cobrar R$ 1.200 por um abadá, mas paga uma diária de R$ 30 a um cordeiro (quando paga) sem dar ao cara água, protetor de ruído, luvas e o direito de usar o banheiro do trio. Que vive num apartheid sem as leis do apartheid.

Pessoas que, infelizmente, ainda têm de dormir em uma fila no posto de saúde para pegar uma senha e ser atendida daqui a dois ou três meses (isso se o médico não faltar no dia da consulta, é claro). Que, por não ter grana, têm de colocar os filhos e filhas para estudar numa escola pública lenhada, sem professores, bibliotecas, computadores, merenda, e que ainda ouvem que os seus filhos não têm bom desempenho escolar porque são burras e desinteressadas (“elas não querem nada”). Que saem todos os dias às ruas para montar a sua banca de camelô, vender água, doces, picolé e caneta nos ônibus e DVD pirata na Lapa, na Avenida Sete, na passarela do Iguatemi e na Estação Rodoviária. Que fazem quatro a cinco faxinas por dia para conseguir dar o que comer às suas crianças. Que limpa vidro de carro nas sinaleiras. Que aguentam os passageiros malas quando estão dirigindo e passando troco dentro dos ônibus. Que têm de aguentar motoristas escrotos que não param no ponto, que dão banho de lama nas pessoas só de sacanagem, e cobradores mal-educados e mal-humorados.

Que começam a tremer de medo de a casa construída no morro com tanto sacrifício desabar quando caem os primeiros pingos de chuva, e depois ainda têm de aguentar o pessoal da SUCOM dizer para elas não ocuparem as encostas quando o Estado tinha a obrigação de dar-lhes moradia decente. Que fumam crack nas ruas e debaixo dos viadutos para tentar esquecer a condição de subalternidade, exclusão e invisibilidade a que são impostas. Que vendem pequenas quantidades de droga nas ruas por não encontrar outra oportunidade de emprego, mas são apresentadas como megatraficantes perigosos no Na Mira e no Se Liga Bocão. Que carregam compras nas portas dos supermercados em carros de mão para ganhar R$ 3 e ainda serem chamadas de preguiçosas. Que vendem caldo de cana nas ruas. Que vendem café e cigarro nas guias de cafezinho (uma mais criativa do que a outra). Que se viram para não sucumbir.

Que, mesmo tendo de enfrentar todas essas mazelas, ainda encontram maneiras de se divertir (afinal, ninguém é de ferro). Que se divertem no pagodão por essa ser a única possibilidade de diversão que o pobre pode pagar (inteira R$15, casadinha R$20. Junta dez meu, dez seu e vamos embora). Que vão ao Barradão ou a Pituaçu ver o time do coração jogar, pagam um ingresso caro para um jogo que começa às 22h e mofam no ponto de ônibus depois que o jogo acaba tarde da noite. Que curtem Gerônimo toda terça-feira na Escadaria. Que não abrem mão de tomar um cravinho no Bar do Cravinho. Que frequenta, aprecia e declama suas poesias toda quarta-feira no Sarau Bem Black do Bar Sankofa (salve Nelson Maca!). Que vão, pelo menos uma vez por mês, ao Tia Célia comer aquela feijoada. Que curtem as praias da cidade, apesar do cenário desolador que se formou após a derrubada das barracas. Que curtem a noite de sábado na Ribeira ou no Beco dos Artistas. Que vão ao Bonfim toda sexta. Que vão ao Opô Afonjá receber a energia de Mãe Stella. Que vão à Igreja Universal toda terça participar da sessão do descarrego.

Que sambam gostoso nos partidos da Liberdade. Que gostam de ver a saída do Ilê no carnaval, e as demais festas que ocorrem durante o resto do ano na Senzala do Barro Preto. Que juntam os amigos e amigas de vez em quando para jogar conversa fora e comer acarajé no Rio Vermelho, em Itapuã e nas demais bancas espalhadas pela cidade. Que vão ao Vila Velha curtir e aprender com o Cabaré da Rrrrrrrraça e demais espetáculos do Bando de Teatro Olodum. Que aproveitam a rica, porém nem sempre acessível, vida cultural da cidade.

Gente que, nas palavras de João José Reis, “reagem, negociam, resistem, atacam, se juntam solidários, às vezes vencem, outras perdem, raramente desistem”. É para vocês que eu presto a minha homenagem e dedico essas palavras.

Animai-vos, povo bahiense! É tudo nosso!!

terça-feira, 8 de março de 2011

Por que eu não gosto de carnaval - Parte 2

Antes leia a parte 1

Motivos pessoais à parte, à medida que eu fui envelhecendo, lendo, estudando e aumentando o meu nível de criticidade, comecei a ver outros motivos para não ter a menor simpatia por essa festa. Vamos a eles: o carnaval de Salvador, ao contrário da propaganda feita pelas agências de turismo e demais setores comerciais que lucram absurdamente em uma semaninha de farra, já deixou de ser democrático e popular há muito tempo (se é que algum dia já o foi). Quem for endinheirado curtirá a festa com o maior conforto e segurança possíveis dentro das cordas dos blocos ou dos cada vez mais luxuosos camarotes (os mais badalados não vendem ingressos justamente para não correrem o risco – remotíssimo - de ter de aguentar um indesejável-atrevido descompreendido-que-não-sabe-o-seu-lugar lá dentro. O acesso é só para convidados). Quem não tem grana, está condenado a curtir a festa em espaços cada vez menores (pois a cada ano os camarotes avançam mais em direção à pista e o diâmetro do espaço delimitado pelas cordas aumenta), superlotados, e por aí vocês já podem prever o resultado dessa combinação: muita gente, pouco espaço, cervejas e otras cositas más na mente, música eletrizante... Os furtos, os assédios sexuais e a porradaria rolam soltos. E a Polícia, como sempre, quando vê a confusão, sai distribuindo cacetada em cima de quem encontrar pelo caminho como método de debelar e prender os briguentos no melhor estilo “bata primeiro e pergunte depois”.

A segregação sociorracial existente nessa festa aparentemente democrática é gritante e me revolta profundamente (racismo, onde?! No carnaval?!! Claro que não. Eu nunca vi nada disso. Todos brincam e se divertem harmoniosamente; o carnaval é uma festa de todos. Esse Rogério é um insuportável mesmo. Está a cada dia pior. Depois que passou a andar com esses vagabundos desocupados do Movimento Negro, pegou essa mania triste de ver racismo em tudo). Não estou dizendo que isso é invenção do carnaval, pois não é. O carnaval é um produto da sociedade em que vivemos, e se esta é desigual, racista, machista, excludente, hierarquizada, autoritária e violenta com os mais pobres, nada mais lógico que o carnaval reproduza tudo isso. O impacto só é maior porque o espaço onde essas coisas acontecem é muito pequeno, mas os camarotes, os cordeiros e demais subalternizados existem durante o ano inteiro. Basta observar como e onde são feitas as festas para os pobres e como e onde são feitas as festas para os ricos.

Poderia citar vários exemplos de racismo no carnaval, mas me deterei apenas em alguns. É revoltante ver pessoas que literalmente acampam nas ruas durante todo o período da festa para ganhar uns trocados vendendo cerveja, refrigerante, água e churrasquinho. É duro saber que aquelas pessoas precisam morar na rua durante uma semana com os seus filhos pequenos para tirar o sustento da família. Além de ter de pagar uma fortuna com o licenciamento na prefeitura para não ter as suas mercadorias apreendidas (quem pensa que o rapa acabou está muito enganado), elas ainda têm de enfrentar a marcação dos prepostos da Vara da Infância e da Juventude que querem autuar os pais e mães das crianças por terem-nas exposto a condições insalubres e a situações de perigo iminente às suas integridades físicas (que palavreado bonito!). É muito fácil perseguir as pessoas que levam os seus filhos para o local de trabalho por não ter com quem deixá-los, quando esse mesmo Estado que só aparece na hora de cobrar impostos e punir quem não cumpre os seus ditames tem a obrigação de construir creches dignas para que as trabalhadoras possam deixar as suas crianças em um local seguro enquanto estiverem trabalhando – e não as constrói.

(Quando eu falo isso, sempre aparece alguém para dizer que essas pessoas podiam deixar as crianças com uma vizinha, como se a vizinha tivesse obrigação de tomar conta dos filhos dos outros.)

Outro exemplo escandaloso da discriminação racial no carnaval é a já conhecida situação dos cordeiros. Trata-se de pessoas desempregadas ou subempregadas (o exército industrial de reserva, para usar um jargão marxista) que são cooptadas pelos blocos para segurar as cordas e separar aqueles que pagaram valores absurdos por um abadá da vil canalha preta e favelada que só vai à rua causar tumulto e roubar os outros. Tem carnaval lá em Cajazeiras, na Liberdade e no Subúrbio Ferroviário, então por que essa gente não fica lá ao invés de ir à Barra incomodar a gente de bem que só quer se divertir em paz?

Eu já sonhei várias vezes com o ano em que os cordeiros se negariam a segurar corda no carnaval, só para ver o que os donos de bloco fariam diante disso. Entretanto, é bom manter os pés no chão e não viajar na maionese. O desemprego estrutural da nossa sociedade existe justamente para reduzir essas pessoas a uma situação tão aviltante, a ponto de elas se verem obrigadas a aceitar fazer qualquer coisa em troca de uma micharia. Ninguém dá ponto sem nó.

Em conversa com amigos e vizinhos (alguns deles que já trabalharam como cordeiros), soube de casos em que um playboyzinho dentro do bloco agrediu uma pessoa que estava fora das cordas e, depois, correu para perto do trio e deixou o cordeiro lá de apara-bala. Ou seja, além de trabalhar em condições subumanas (pouca água, comida insuficiente, sem um calçado adequado [que os blocos teriam obrigação de dar, mas entraram na Justiça atrás de respaldo legal para descumprir a legislação trabalhista], ouvindo aquele som insuportavelmente alto com risco de desenvolverem problemas auditivos), essas pessoas ainda têm de servir de colete à prova de balas da playboyzada. E depois ainda há quem culpe exclusivamente os pobres pelos altos índices de violência no carnaval.

Não posso deixar de citar que, além de tudo isso que eu descrevi acima, os cordeiros e cordeiras (sim, há mulheres que também trabalham com isso) sofrem para receber os seus pagamentos depois que a festa acaba. Todo ano, a coisa se repete: filas enormes se formam nas portas das sedes dos blocos compostas por pessoas que trabalharam, mas não receberam os seus pagamentos na data previamente combinada. E quando elas se valem do direito legítimo de protestar contra esse descaso com que são tratadas, a Polícia ainda aparece lá para baixar a porrada em todo mundo sob o pretexto de “manter a ordem e conter os excessos”.

Um dos meus cunhados é segurança profissional e trabalha no carnaval há um bom tempo. Ele apareceu aqui em casa no domingo, e, como ainda estava escrevendo este texto, aproveitei para conversar com ele sobre o assunto a fim de obter algumas informações sobre o trabalho dele durante a festa. Contou ele que, já há alguns anos, integra a equipe que faz a segurança de cinco homens que vêm dos Estados Unidos anualmente para se esbaldar em Salvador. A miséria já começa na saída do aeroporto, pois os turistas têm de sair em comboio com escolta armada se não quiserem correr o risco de serem assaltados já na saída do bambuzal (passagem que fica a cerca de duzentos metros do portão de desembarque do aeroporto). Em outras palavras, ele, que é pai de cinco filhos, tem de fazer a proteção dos gringos, enfrentar os bandidos à bala se necessário e correr o risco de morrer e deixar a mulher sozinha com essa pequena trupe para que os estrangeiros não sofram um arranhão (ai do meu cunhado se acontecer alguma coisa com um desses caras aqui no Brasil). Como se não bastasse, ainda de acordo com ele, os turistas não param quieto: vão ao Campo Grande, depois de cinco minutos querem ir à Barra, depois querem voltar para o Campo Grande, em seguida ir para Ondina... Para finalizar, ele ainda disse que os gringos usam muita droga para ficarem acordados e não perderem um minuto sequer da gandaia, e para isso pedem aos seguranças para comprar cocaína e trazer prostitutas para eles. Ainda bem que o meu ramo de trabalho é outro, pois se eu não uso drogas proibidas por lei justamente para não ter de ir à boca-de-fumo comprar para mim, eu jamais iria à boca-de-fumo comprar droga para safado nenhum. Não iria, e não irei.

***

O circuito do Campo Grande-Praça Castro Alves está sendo progressivamente desprestigiado. Os blocos mais badalados já não desfilam mais lá. Alguns blocos afro e afoxés, que só desfilavam neste circuito em nome da tradição, já migraram para o circuito Barra-Ondina inclusive por questão de sobrevivência. Como as emissoras de televisão só querem ficar na Barra (só colocam alguns gatos-pingados na Avenida para cumprir tabela), e aparecer na TV é uma maneira de se mostrar e atrair a atenção do público assim como anunciantes (uma vez que os blocos afro estão sendo progressiva e muito sutilmente eliminados da festa via asfixia financeira), a migração é de certa forma até justificada. O empresariado carnavalesco baiano até já tentou acabar com o circuito Osmar (batizado assim em homenagem a Osmar Macedo, um dos inventores do trio elétrico), mas desistiu por causa do forte alarde feito pelos defensores da tradição; afinal de contas, disseram eles, foi na Avenida que tudo começou e, portanto, não é justo que esse circuito seja extinto. Isso não significa que os empresários foram demovidos da ideia, eles simplesmente só estão esperando os tradicionalistas morrerem para executar o seu plano em paz e sem risco de passarem por tiranos e impopulares.

O maior símbolo do descaso com o circuito tradicional da festa (o Barra-Ondina surgiu inicialmente como alternativo) é o encontro de trios, que acontecia na quarta-feira de Cinzas, que já não é realizado há mais ou menos cinco anos e que foi substituído pelo arrastão de Carlinhos Brown e Ivete Sangalo (ô mulherzinha sem graça!). As estrelas da axé music já não se apresentam mais lá com frequência. Os patrocinadores já não exibem mais as suas marcas no trajeto, pois a quantidade de pessoas que veriam a publicidade cai ano após ano, além do fato de as redes de televisão não se interessarem mais em fazer a cobertura do evento na Avenida.

Diante disso, fica notório que foi-se o tempo em que as pessoas traziam as suas cadeiras de casa e colocavam na rua para ver os blocos passarem. Cada vez mais, o carnaval de Salvador torna-se artigo de luxo, e os pobres só podem ir ou para trabalhar ou para tomar porrada da Polícia. Como disse Thaíde e DJ Hum, “que tempo bom, que não volta nunca mais”.

sábado, 5 de março de 2011

Por que eu não gosto de carnaval - Parte 1

Eu não gosto de carnaval. Em algumas vezes que eu disse isso, dentro e fora de Salvador, fui olhado com uma cara de estranheza e incredulidade, como se quisessem dizer “esse cara é baiano e não gosta de carnaval?! Impossível! Ele só pode estar de sacanagem”. Mas eu me pergunto: por que as pessoas acham que todo baiano TEM obrigação de gostar de carnaval? Todo russo gosta de vodka e de balalaica? Todo alemão gosta de chucrute ou salsichão? Todo japonês gosta de saquê? Todo estadunidense gosta do basquete da NBA, de comer aqueles hambúrgueres enormes e gordurosos e de usar aquelas roupas do pessoal do rap? Faz sentido acreditar que todas as pessoas têm obrigação de gostar de tudo o que dizem que as pessoas daquele grupo devem gostar? Fica a dúvida.

A minha rejeição não é por má vontade, do tipo “não vi e não gostei”. Eu já tentei gostar de carnaval, mas não consegui. Quando eu era bem criança, minha mãe inventou de me levar ao carnaval junto com o meu irmão mais velho. Até hoje, guardo na mente aquele mar de gente pulando no meu entorno, aquele misto de claustrofobia, dificuldade para respirar e desespero por não ter a menor condição de sair do meio daquela turba ensandecida. Meu irmão, coitado, levou uma puta pisada no pé desferida por um homem enorme, e em consequência disso não agüentou nem andar de volta para casa. Teve de ser carregado pela minha mãe. Tempos depois, eu relembrei o fato e perguntei à minha genitora por que ela fez aquilo comigo. Ela disse que nos levou ao carnaval porque trabalhava muito (isso é verdade), não tinha tempo (nem oportunidade) para dar um passeio conosco e porque foi uma das poucas chances que teve de nos levar a um lugar diferente. Porra, mas logo no carnaval? Será possível que não havia lugares mais agradáveis – e recomendáveis - para duas crianças passearem e se divertirem? Se eu tivesse filhos e não tivesse tempo de sair com eles, eu jamais os levaria àquele pandemônio quando tivesse uma brechinha na minha agenda.

Por causa disso, passei a infância e a adolescência inteiras traumatizado com o carnaval. Contudo, esse trauma vinha acompanhado de uma enorme curiosidade. Até os 17 anos, sempre ouvi as opiniões mais dicotômicas possíveis acerca da folia momesca; percebi que carnaval é algo que as pessoas amam ou odeiam, e que não há meio termo. Carnaval é muito bom, carnaval é uma merda, eu adoro carnaval, eu detesto carnaval, eu não vejo a hora de começar a festa para eu cair na gandaia, eu não vejo a hora de essa bosta acabar para a cidade voltar ao normal... Essa marcante diferença de opiniões exerceu forte pressão na minha cabeça durante a minha adolescência, e eu resolvi que era hora de enxergar a desgraceira com os meus próprios olhos.

Quando completei 18 anos, em 1998, combinei com um colega de escola para irmos ao carnaval. No dia anterior, ele ligou para mim e disse que não conseguiu dinheiro com a mãe dele para sair, pois ela é evangélica e não daria grana para o filho se perder na festa do demônio. Como já estava decidido a tirar as minhas próprias conclusões, e ninguém me demoveria disso, resolvi que iria sozinho – e fui. Já no ônibus, percebi que carnaval de fato não é festa para qualquer um. Não sei o que acontece, mas as pessoas ficam tresloucadas durante os dias de festa: uma gritaria desgraçada dentro do ônibus (não que as pessoas viajem em silêncio costumeiramente, é claro), gente sentada no encosto da cadeira com os pés no assento, vários fumando, outros bebendo, alguns tocando, pegando, mexendo e dizendo impropérios às mulheres... Enfim, uma zona infernal.

Passado o sufoco de descer na Estação da Lapa e encontrá-la tomada de gente, com dificuldade para dar um simples passo, consegui chegar ao circuito da festa. E as minhas expectativas se confirmaram: carnaval não é festa para mim mesmo! Os quebra-paus aconteciam por segundo. Em um dado momento, tive de ficar mais de meia hora junto a um posto da Polícia Militar para não correr o risco de ser agredido por um (ou mais de um) daqueles monstros. Houve um que me viu sozinho, segurou meu braço e tentou me jogar no meio de um fuzuê, mas eu alterei a voz (não sei de onde tirei tanta coragem) e ordenei ao safado que largasse o meu braço. Mas nada disso me deixou mais apavorado quanto uma cena que vi alguns minutos depois: estava andando pelo Campo Grande, nas imediações do Hotel da Bahia, quando vi um grupinho se estapeando. Um conseguiu acertar um soco no outro, e esse outro caiu. Quando este colocou as mãos no chão para se levantar, recebeu um violento chute no tórax do mesmo cabra que o derrubou. Ao ver isso, os amigos do nocauteado correram para protegê-lo e vingar as porradas dadas pelo valentão. Quando este correu para fugir, se bateu com uma guarnição de cinco soldados da tropa de choque da Polícia Militar (um maior e mais parrudo do que o outro) e caiu. Ato contínuo, um dos soldados pegou o sujeito pelo queixo, ergueu e soltou. Eu nem quis mais ver o resto da cena.

No outro dia, como não tinha mais dinheiro para ir ao centro, resolvi ir a uma festa (mal) organizada em Cajazeiras, bairro onde moro. Foi aí que a coisa desandou para o meu lado, e me fez ter certeza de que, durante esse estado de sítio vigente por uma semana na cidade, eu só tenho duas alternativas: ou ir para um lugar bem longe e só voltar quando o parnavueiro acabar, ou ficar trancado em casa assistindo a filmes sem me atrever a colocar o nariz para fora da janela (que é o que eu estou fazendo neste ano). Primeiro, um grupo de homens queria me dar porrada por achar que eu estava dando em cima da namorada de um deles (e eu não estava). Depois, os policiais estavam espancando as pessoas por nada. Bastava que um meganha não fosse com a cara de uma pessoa para desferir uma cacetada ou um tabefe contra ela. Por fim, veio a desgraceira: após ter dançado e pulado demais, parei num lugar mais afastado para sentar e descansar um pouco. Cerca de cinco minutos depois, fui atingido à traição na altura do rim esquerdo por um forte chute desferido por um drogado. Ao tentar fugir dos covardes (ele estava acompanhado por outro sujeito, também drogado), caí e torci o meu pé esquerdo. Passei cerca de duas semanas com o pé enfaixado.

Isso aconteceu no dia 24 de fevereiro de 1998, e neste dia eu jurei para mim mesmo que jamais colocaria o meu pé em um festejo carnavalesco. Até assistia às transmissões pela televisão, mas, neste ano, resolvi que nem isso eu vou fazer. Pouco me interessará as performances das estrelas da axé music; nem me preocuparei com a macaquice que Durval Lélis inventará para atrair a atenção dos foliões e os olhares da mídia, pois eu aproveitarei o meu tempo com coisas bem mais interessantes.

Ficarei em casa, assistindo a filmes, e cagarei para o que estiver acontecendo no centro da cidade. Só nos últimos dois dias, eu já assisti a cinco.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Você tem medo de morrer?

Diálogo em uma banca de acarajé com a minha tia Antônia no dia 22 de dezembro de 2010:

Eu: Depois de beber essa cerveja, bateu uma vontade de fumar um charuto!

Ela: O quê?! Meu sobrinho, não faça isso. Fumar é prejudicial à saúde. Foi o charuto que acabou com a vida da sua avó. Você é muito jovem para estragar a sua vida assim.

Eu: Porra nenhuma, minha tia. Por que a senhora acha que eu me preocuparia com algo que pode me matar daqui a 25-30 anos quando há uma caralhada de coisas que podem me matar agora? A morte chegará para todos, fumantes ou não-fumantes. E mais: antes de condenar os hábitos das outras pessoas com a justificativa de que elas estão estragando as suas vidas, a senhora deve fazer uma autoanálise e saber quais são os prazeres dos quais a senhora não abre mão em prol de uma vida mais longa.

Por que a senhora pode tomar cerveja e eu não posso fumar um charuto, sendo que a cerveja é uma droga tão potente e destrutiva quanto o tabaco? A senhora não quer abrir mão do seu prazer de tomar uma cerveja, mas se acha no direito de colocar o dedo na minha cara e dizer que eu não devo mais fumar um charuto. A senhora acha isso justo?

Ela: Eu só estou falando isso pro seu bem. Você é muito jovem, e isso não é bom. Além disso, você é professor e, portanto, não é legal ser visto fumando charuto por aí.

Eu: O que uma coisa tem a ver com a outra? Qual é a incompatibilidade que há entre a minha profissão e o fato de eu gostar de fumar um charuto? Minha tia, o caráter de uma pessoa não se avalia pelo tipo de substância que ela consome. Na faculdade, eu tive professores, doutores, famosos, renomados, prestigiadíssimos nas suas áreas, que fumam maconha tranquilamente – e eu imagino que isso não influencia em nada o desempenho profissional deles. O que nós precisamos fazer é mudar a nossa atitude com relação a certas coisas, isto é, parar de julgar as pessoas pelas substâncias que elas consomem. Se eu disser em alto e bom som que gosto de tomar cerveja, ninguém falará nada. Mas se eu disser, por exemplo, que gosto de fumar maconha, todos me censurarão e passarão a me tratar como um pária. Por que isso?

O álcool é uma droga bem mais destrutiva do que a maconha. Grande parte das mortes no trânsito acontece devido a motoristas que ingeriram álcool antes de dirigir, não maconha. A maioria dos homens que agridem suas esposas e filhos em casa faz isso depois de ter consumido álcool (não que eu ache que a culpa é da cachaça, é claro; álcool é agravante, não atenuante), não fumado maconha. Se eu disser que não bebo e não fumo, muita gente dirá que eu sou da geração saúde e me terá no mais alto conceito; se eu disser o contrário, o meu caráter será imediatamente colocado sob suspeita. Hitler não bebia e não fumava, tinha verdadeiro asco a vícios, e no entanto fez o que fez. E aí?

Ela: Eu só estou falando assim porque o charuto pode te levar à morte. Afinal de contas, a sua avó morreu por causa disso.

Eu: E a cerveja que a senhora toma não pode te matar?! Eu não tenho medo da morte, minha tia. Quem fuma charuto morre, e quem não fuma morre do mesmo jeito. Além do mais, a senhora, ao tomar uma cerveja, corre o mesmo risco de desenvolver doenças e morrer em consequência delas que eu corro ao fumar um charuto. Por que a senhora não para de beber então?

Nós temos de parar de nos preocupar com essas besteiras e curtir a vida, pois esta é muito curta. Pouco importa o tempo que vivamos (seja 10, 20, 30 [minha idade], 56 [a idade dela], 70, 80, 90...); ninguém terá tempo para ver e fazer tudo o que quer. Jorge Amado morreu aos 88 anos, quatro dias antes de completar 89, e antes de morrer disse que tinha consciência de que não tinha visto nem 10% das coisas que queria ver, lido um milésimo dos livros que queria ler e escrito todos os textos que gostaria de escrever. Seja lá o tempo que tenhamos em cima dessa terra, nós temos que aproveitar e nos divertir. Se a senhora tem tanto medo de morrer assim, a senhora não deveria comer nada do que habitualmente come, pois a nossa alimentação diária é cheia de veneno; se a senhora quer viver muito, não deveria nem ter saído de casa para não correr o risco de ser atingida por um ônibus desgovernado e morrer esmagada. Ou a senhora acha que essas coisas só acontecem com os outros?

Um ex-estudante meu morreu aos 20 anos de idade, de câncer de pulmão, e a família dele disse que ele nunca colocou um cigarro na boca (as pessoas acham que só os fumantes podem desenvolver câncer de pulmão, bem como só os alcoólatras podem ter cirrose). O pai de um amigão meu não bebia, não fumava, não comia gordura, não estava acima do peso, não perdia noite de sono, praticava esportes regularmente, isto é, cumpria todas as prescrições de uma vida longa e saudável. Um belo dia, ele saiu de casa para pedalar de bicicleta, como de costume, e, no meio do trajeto, teve um ataque cardíaco fulminante e morreu na hora. Nenhum dos dois fumava charuto. Portanto, eu não aceito que ninguém venha de dedo em riste para cima de mim e diga como eu devo viver.

Além do mais, de que adianta viver muito e não ter história pra contar? De que adianta viver muito e se reprimir a vida inteira? Eu poderia ficar em casa o tempo inteiro para não correr risco de morrer antes da hora (se é que alguém está livre de sofrer um acidente doméstico e morrer em consequência dele, é claro), mas quantas experiências de vida eu perderia se fizesse isso? Se um charuto me relaxa quando eu estou por demais estressado, por que eu o dispensaria?

Ela: É verdade. Você tem razão.

***

E vocês, o que pensam a respeito disso? Quero saber.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Que o ano de 2011 seja o ano da minha, da sua, da NOSSA mudança.

É sempre a mesma coisa. As pessoas se sacaneiam o ano inteiro, se xingam, se odeiam, mal olham para as caras umas das outras (quando olham), mas, no final de ano, subitamente elas ficam boazinhas, solícitas, entregam presentes como forma de compensar o desprezo e o descaso rotineiros (é o “espírito natalino”); depois que passa o Natal, todas elas vestem branco (para trazer paz), vermelho (amor), amarelo (dinheiro), verde (esperança); pulam sete ondinhas, entregam presentes à Iemanjá (e poluem o já bastante poluído meio-ambiente), colocam caroços de romã na carteira, fazem promessas sabendo que não as cumprirão, arquitetam planos irrealizáveis e congestionam as linhas telefônicas à meia-noite para desejar Feliz Ano Novo aos outros (quem precisar fazer uma ligação de urgência nesse horário estará lascada). Nossa, que saco!

Eu não sei o que leva as pessoas a acreditar que uma simples mudança de dia causará transformações profundas na nossa vida cotidiana. Que o mundo se tornará, como num passe de mágica, um lugar lindo, idílico, sem desigualdades, miséria, violência, corrupção, quase um Jardim do Éden; que todos (TODOS!) os nossos problemas se acabarão quando o ponteiro do relógio marcar o primeiro minuto do ano seguinte. Na verdade, eu até sei: é que as pessoas levam uma vida tão desgraçada, são tão sacaneadas, roubadas, maltratadas, desprezadas, invisibilizadas, e por conta disso é necessário parar um momentinho para alimentarem aquela esperança falaciosa de que tudo vai melhorar – ainda que todos tenham consciência de que isso é mentira. E depois ainda há quem fique puta com a minha cara quando eu digo que as pessoas gostam de ser enganadas.

A passagem de 31 de dezembro para 1º de janeiro é uma mudança de dia igual a todas as outras que acontecem ao longo do ano. Uma simples mudança de calendário não causará impacto nenhum na minha vida; na de vocês, eu não sei. Eu me sentiria um completo babaca se eu fizesse toda essa papagaiada e acreditasse que tudo será diferente do que foi na minha vida em 2010... só porque é 2011!!!

Se vocês querem que o mundo seja um lugar melhor, mudem a vocês mesmos primeiro. Beber é bom (e eu gosto), festejar é bom, se divertir é maravilhoso (e necessário), mas não é nada disso que vai trazer os benefícios que queremos. Melhor, o ano não vai mudar enquanto nós (não tire o seu da reta) continuarmos repetindo os mesmos erros do passado. As mesmas apatias do passado. O mesmo descaso do passado. A mesma passividade do passado. O mesmo conformismo do passado. E isso pode ser feito em qualquer dia, não só no último dia do ano.

É por isso que eu digo a toda pessoa que me deseja um Feliz Ano Novo que o ano será novo, mas os problemas e os desafios a enfrentar serão os mesmos. Portanto, inclua na lista de desejos para 2011 um pouco mais de coerência, vergonha na cara e vontade de mudar para que as coisas sejam do jeito que vocês querem. Não queiram que os outros mudem primeiro para vocês mudarem depois. Deem o exemplo.

Um mundo melhor não virá com um simples toque da varinha de condão, mas com vontade, disposição e, sobretudo, coragem para fazer as mudanças acontecerem. E a mudança tem de começar agora, já, neste exato momento, pois é público e notório que quem deixa para parar de fumar na segunda-feira não para de fumar nunca.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O sapatinho da Cinderela, o alisamento de cabelo e a opressão racista

Esse texto é fruto de um bate-papo virtual com Gabriel Swahili, um conhecido, ex-colega de trabalho e parceiro de caminhada, no dia 13/12/2010, no MSN.

Tudo começou quando a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins colocou no Twitter uma frase sobre o mito da Cinderela e a mensagem subjacente que esta historinha passa para as mulheres desde a infância. Conta o mito que o príncipe sai com um sapatinho nas mãos em busca da mulher cujo pé coubesse dentro dele (do sapato, é claro), e a mulher que conseguisse isso seria tomada como princesa. Por conta disso, muitas mulheres com pés maiores começaram a mutilá-los de modo que coubessem no bendito sapato para poderem ser escolhidas. Navarro Lins emendou que esse conto passa para as meninas a ideia de que as mulheres têm de aprender desde cedo a adequar os seus corpos às exigências masculinas, seja lá qual for o preço que deva ser pago por isso. Lembro que certa vez li que, há - e durante - muitos séculos, as mulheres chinesas que tinham pés considerados grandes fraturavam-nos e colocavam-nos em sapatos para diminuir o tamanho deles, pois os homens só se sentiam atraídos e escolhiam como esposas mulheres com pés pequenos. Ou seja, o mito não é tão mito quanto pensamos que seja.

Eu concordei com ela, mas o meu conhecido Swahili fez algumas ressalvas. Disse ele que tanto eu como Navarro Lins estávamos vendo as mulheres como indefesas por excelência, pois, na história, o príncipe procura o pé, não maneja a faca (palavras dele). Fiquei bastante assustado após ter lido isso, e escrevi a seguinte mensagem-resposta: “Gabriel, foi você mesmo que escreveu isso? Eu não acredito!” Na data citada acima, ele entrou no MSN e, ao ver que eu estava online, puxou conversa e tivemos um saudável e respeitoso debate sobre o assunto.

Comecei dizendo que acho a interpretação dele equivocada, pois o príncipe não maneja a faca, mas também não casa com uma mulher que não tenha feito os seus sacrifícios para que o pé caiba dentro do tal sapato (inclusive mutilá-lo). E, numa sociedade na qual a única possibilidade de sobrevivência minimamente digna para as mulheres estava no casamento (até porque elas só eram preparadas para isso), aquela que se recusasse a fazer sacrifícios para se enquadrar nas exigências masculinas estaria perdida, mal-paga e desamparada. Trocando em miúdos, as mulheres se viam diante de um grande dilema: ou se adaptavam aos enquadramentos estéticos impostos pelos homens, ou ficariam desamparadas sem ter onde cair vivas (esse papo de “fulana não tem onde cair morta” é mentira. Ela pode não ter onde cair viva, pois, morta, ela cairá em qualquer lugar).

Aproveitei o ensejo para fazer uma comparação com algo ainda bem presente na sociedade brasileira: o alisamento de cabelo. Acho que esta comparação é bastante válida (corrijam-me se eu estiver errado). Às vezes, encontro algumas pessoas que descem a lenha em cima das mulheres que foram jovens nas décadas de 1970 e 1980 por elas alisarem os cabelos com a justificativa de que elas estavam “negando a raça”, “não queriam ser negras”, ou eram “mulheres descaradas e desavergonhadas”, uma vez que o certo seria enfrentar a sociedade. Ora bolas, falar é fácil. Darei um exemplo bem próximo de mim: a minha mãe. Em 1981, ela era uma mulher de vinte e seis anos de idade e já tinha três filhos. Sozinha, teve de trabalhar em dois empregos (às vezes três em alguns momentos) para sustentar essa pequena tropa. Vocês acham que ela deveria perder tempo entrando em conflito com os patrões? Se ela já sabia que seria discriminada sumariamente pelos empresários se batesse na porta deles com os seus cabelos crespos, vocês acham que ela seria idiota a ponto de se negar a alisá-los? Enquanto ela estivesse lá lutando contra a opressão estética racista e se afirmando como negra, quem colocaria comida na minha boca e na boca dos meus irmãos? Povo, o papo é o seguinte: em uma situação desigual de poder, fala-se a língua do mais forte. Se ter os cabelos esvoaçantes ao vento era condição sine qua non para conseguir um emprego, e ela tinha três bocas para dar comida, tudo bem. Que assim seja: alisa essa porra!

(Antes que alguém grite, deixe-me dizer que isso não acabou. Pelo contrário. Há patrões que, atualmente, ainda se recusam a contratar funcionárias que não estejam com os cabelos alisados ou as ameaçam de demissão caso elas não alisem as madeixas.)

Eu não tenho nada contra as mulheres que alisam os cabelos. Quem me conhece sabe que eu não canso de dizer que as negonas são donas dos seus corpos, e, portanto, elas têm o direito de fazer o que quiserem com eles. Se elas gostam de alisar os cabelos, se se sentem bem assim, tudo bem. Eu só luto para que a decisão de dar chapinha, escova progressiva, passar guanidina ou equivalentes seja fruto de uma escolha, não de uma imposição. Ou seja, batalho para que as mulheres negras não sejam obrigadas a alisar os cabelos para serem aceitas pela família e pelos amigos; para conseguirem emprego com mais facilidade, não serem assediadas moralmente pelos colegas de trabalho e patrões; para serem vistas como mulheres mais desejáveis pelos homens (afinal de contas, as negonas também têm o direito – e a necessidade – de beijar na boca e gozar gostoso). Assim como o príncipe na história da Cinderela, há homens que não obrigam as mulheres a alisar os cabelos, mas também não se relacionam com mulheres que não fazem isso.

Em outro momento, Swahili disse que não concorda muito com essa explicação porque, segundo ele, o papel de sujeito dos subalternizados fica anulado. Eu disse que não, e sustentei que reconheço muito bem que os oprimidos são sujeitos, mas em uma relação assimétrica de poder, como já disse, cantar a música que os mandões gostam de ouvir é uma questão de sobrevivência; ninguém (pelo menos até onde eu sei) seria fodão de discutir com uma arma apontada para a cabeça. O historiador João José Reis é muito enfático ao dizer que os escravizados não foram vítimas passivas da escravidão. Eles e elas resistiram o quanto - e da forma que - puderam ao escravismo: através do “corpo mole”, manipulando psicologicamente os seus senhores e prepostos destes, de pequenas e grandes sabotagens (colocar limão no caldo de cana, tacar fogo nas plantações, quebrar os dentes do moinho, dentre outras). Houve rebeliões, revoltas, quebra-paus, senhores matando escravizados, escravizados matando senhores, mas nem sempre era possível – e recomendável – para os escravizados bater de frente contra o sistema; apesar de serem sujeitos, os escravizados tinham um poder de ação bastante limitado. Eles sabiam que tinham de resistir com cuidado e, em alguns momentos, era fundamental fazer (ou pelo menos fingir que estavam fazendo) o jogo dos seus senhores, pois qualquer passo em falso poderia significar o fim da existência.

Claro que houve escravizados que passaram para o lado dos senhores porque quiseram e tinham plena consciência do que estavam fazendo (os capitães-do-mato estão aí para não me deixarem mentir). Não estou negando isso (antes que alguém brade). Era fundamental para o sistema escravista contar com aliados dentro do grupo discriminado, pois, se não fosse isso, a escravidão não teria durado tanto tempo. Todavia, escravizados assim foram exceções – que não devem ser confundidas com a regra.

Em suma, as mulheres são sujeitas. Cabe a elas (e somente a elas) a decisão soberana de fazer o que bem entenderem com os próprios corpos (em qualquer caso). Mas como disse a minha amiga Carol Campbell, é necessário compreender que há mulheres que não aprenderam a se valorizar, a aceitar o seu corpo como ele é, a reconhecer que também são belas, que ouviram todos os absurdos possíveis e imagináveis quando a mãe ou as tias estavam penteando os cabelos delas (uma amiga minha disse que a mãe sempre penteava os cabelos dela repetindo o seguinte mantra: “está vendo, minha filha? Não case com homem preto, pois, se você fizer isso, os cabelos dos seus filhos serão assim, duros iguais aos seus"), e nesses casos é necessário fazer um trabalho longo e delicado de mudança de óptica. É preciso ajudá-las a trocar as lentes com que veem o mundo e a forma como foram inseridas nele, e isso não é algo que acontece em pouco tempo. Ninguém se desvencilha dos próprios preconceitos tão rápida e facilmente quanto aparenta.

(Aproveito a ocasião para contar um caso estarrecedor que ouvi num curso que tomei no Instituto Cultural Steve Biko: uma mulher, negra, tinha uma raiva tremenda dos próprios cabelos. Havia feito de tudo para deixá-los lisos, do jeito que sempre viu nas propagandas de shampoo na televisão. Tentou de tudo: deu chapinha, fez escova progressiva, passou ferro, deu alisante, mas nada. Imagino eu que ela seria capaz de passar até bosta de cavalo se por acaso algum insano dissesse a ela que isso deixaria os cabelos lisos, sedosos e esvoaçantes. Como nada disso deu certo, ela tomou uma medida drástica: colocou os cabelos na mesa, cobriu com uma toalha e passou ferro de roupa nele. Dado que os resultados continuaram insatisfatórios, ela, num acesso de fúria, ateou fogo na cabeça para se livrar dos cabelos “duros”. Foi levada para o hospital com queimaduras de segundo e terceiro graus no couro cabeludo, e ficou um bom tempo internada.

Depois que recebeu alta, a equipe de coordenação e alguns psicólogos ligados à instituição tomaram conhecimento do caso e, após conhecê-la, começaram uma longa sessão de acompanhamento para tirar da cabeça dela essa ideia racista de que cabelos crespos são feios, duros, de pixaim, dentre outros termos pejorativos. Hoje, ela está melhor, aceita o seu corpo como ele é e se tornou mais uma ativista na luta contra o racismo. Não sei quem ela é, antes que alguém pergunte se eu a conheço.)

Para finalizar, ainda de acordo com os comentários da minha amiga Carol Campbell, é necessário também mudar a visão da sociedade como um todo, pois enquanto as mulheres tiverem de se mutilar para serem aceitas, e as que se recusarem a fazer isso forem vistas como feias, incapazes e sistematicamente preteridas, seja como trabalhadoras ou como namoradas/esposas, nada mudará. Elas continuarão tendo que cortar os seus pés ou alisar os cabelos para conseguirem sobreviver.

Não é isso que eu quero. E vocês?

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O capitalismo e as suas crueldades cotidianas

Presenciei uma situação inusitada e revoltante hoje à tarde (dia 08/12). Um dos exemplos mais impactantes que tive da crueldade da exploração do trabalho. Estava dentro de um ônibus coletivo quando de repente entrou um vendedor de doces, cego. Depois de um certo tempo conversando com o motorista, ele começou a andar e anunciar os seus produtos. Uma coisa chamou bastante a minha atenção: ele carregava preso à parte da frente da camisa um crachá com os dizeres: “Operador de Vendas Externas/Pertence à RCR Atacado/PROIBIDO GORJETA”. Após ter anunciado os produtos e dizer o preço de cada um deles, ele fez questão de destacar que não aceitava gorjeta e pediu para que as pessoas não dessem dinheiro a ele se não quisessem comprar os doces.

Fiquei muito intrigado com aquilo. Inicialmente, pensei que ele quisesse se valorizar como trabalhador, pois estava vendendo os doces dele e, portanto, queria ser visto como uma pessoa capaz pelos outros passageiros. Em resumo, que ninguém ficasse com peninha do ceguinho e desse uma esmolinha para ajudá-lo. Até aí, tudo bem.

Entretanto, me senti fustigado com a mensagem no crachá dele e resolvi tirar a dúvida. Quando estava perto do ponto onde eu teria de descer, eu me levantei um pouco antes para dar tempo de puxar conversa com ele. Perguntei:

- Por que você disse que não pode aceitar gorjeta?

Ao que ele respondeu:

- Não posso porque a empresa me proíbe. Se o fiscal me ver aceitando dinheiro dos outros sem vender os produtos, eu tomarei reclamação do meu chefe e poderei até ser demitido por conta disso. Aí, é prejuízo pra mim, cara. Emprego tá difícil.

Sei muito bem que o mundo capitalista é cruel, que empresário não tem amor a ninguém exceto a família dele (e olhe lá) e que só quer saber de maximizar os lucros. Não sou nenhum bobinho. Mas eu não consigo deixar de me espantar com certas coisas que vejo por aí. Porra, pegar um homem cego, pobre, colocá-lo para vender doces nas ruas e ônibus de Salvador, e, como se não bastasse, ainda colocar um fiscal para vigiá-lo para que ele não aceite gorjeta de ninguém é demais para mim. É possível que de fato não houvesse fiscal nenhum escalado para monitorá-lo, mas o trabalhador não tinha como saber disso por razões óbvias. É por isso que eu falo sempre para os meus familiares, amigos e estudantes que nós não devemos ter um pingo de pena dos ricos, pois estes não têm misericórdia de ninguém.

Quando eu digo isso, invariavelmente surgem olhos arregalados e rostos espantados na minha frente por achar que eu sou um assassino em potencial (como os psicólogos, psicanalistas e psiquiatras dizem que qualquer pessoa é capaz de matar, os meus estudantes não estão necessariamente errados. Mas também não estão certos, pois eu nunca matei ninguém. Ainda). Entretanto, sejam sinceros: o que você acha que deve ser feito com um canalha que faz um absurdo desses com um homem cego e pobre? Não estou dizendo que os cegos não podem trabalhar. Mas desse jeito? Nessas condições? Além do mais, quem me garante que ele recebe a parte dele corretamente? Ele trabalha para uma empresa, mas com carteira assinada? Os encargos sociais estão sendo recolhidos?

Se fazer isso com um trabalhador que goza de todas as suas funções vitais já é um absurdo, com um portador de necessidades especiais chega a ser um crime hediondo. É inadmissível que as pessoas vejam isso e achem normal, por mais que a exploração seja vista como uma coisa normal por nós. Reconheço que mudar o olhar das pessoas é muito difícil (eu já tenho dificuldade para mudar o meu com relação a algumas coisas, que dirás mudar o dos outros), mas é necessário.

Eu não quero ter que achar normal ver um mano meu coberto com jornal, como bem disseram os Racionais MCs, mas há pessoas que são capazes de passar por uma pessoa jogada na rua, pisar em cima e ainda reclamar com ela. Infelizmente, somos educados para pensar que pimenta nos olhos dos outros é refresco e que nós estamos livres de ser reduzidos a essa condição. Enquanto não mudarmos isso, nada mudará.