domingo, 13 de junho de 2010
"Ah, meu deus! Ela nem tinha cara de ladra!"
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Rio de Janeiro: Auschwitz Versão Brasileira*
Recebi hoje um email com um manifesto de um bloco de carnaval chamado Se Benze que Dá, que está capitaneando um protesto contra a construção de um muro que cerca as comunidades da Maré, localizada na cidade do Rio de Janeiro. A justificativa dada pelos governos estadual e municipal para esse absurdo é que, além de contribuir para a melhoria de vida (!) e proteger as crianças das comunidades do risco de serem atropeladas (!!), o muro servirá como "barreira acústica" (!!!). Entretanto, sabe-se muito bem que o real objetivo de tal medida é esconder as favelas do campo de visão dos turistas que visitarão a "cidade maravilhosa" durante a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 - além de ser uma ótima medida para aumentar a criminalização da pobreza e assim tornar mais eficaz a opressão contra os pretos, pobres e favelados da cidade, é claro.
O custo total dessa ignomínia será de R$ 20 milhões. Pergunto: se o objetivo fosse mesmo melhorar as condições de vida dos moradores da Maré, por que os governos municipal e estadual não pensaram em usar essa grana para construir escolas, postos de saúde e creches dentro da favela, além de aperfeiçoar o sistema de escoamento da água da chuva? Seria muito melhor fazer isso do que tentar empurrar a sujeira para baixo do tapete (não que eu pense que os moradores da Maré são sujeira, é claro).
Ao ver esse vídeo, eu me lembrei imediatamente das medidas tomadas pelos governos da África do Sul na era do apartheid para manter os pretos confinados nos bantustões e distantes das áreas nobres das principais cidades sul-africanas. É ou não é muito parecido?
Só falta o prefeito do Rio de Janeiro baixar um decreto exigindo que os moradores da Maré apresentem um passe aos policiais toda vez que desejarem sair da comunidade. Eu não ficarei nem um pouco surpreso se isso acontecer (se bem que, na prática, isso já acontece).
Vale salientar que isso não é coisa nova. Ainda de acordo com o manifesto divulgado pelo bloco carnavalesco supracitado, o Governo tentou fazer a mesma coisa em 2003 e 2004 como forma de "embelezar" a cidade para os Jogos Panamericanos de 2007 - mas não conseguiu. Agora, com a realização dos dois maiores eventos esportivos do mundo, parece que as autoridades cariocas estão decididas a empenhar todos os esforços possíveis para erguer essa coisa horrenda e vergonhosa que mais lembra os campos de concentração nazistas da Segunda Guerra Mundial. Com base nisso, digo que também não ficarei surpreso se o governo colocar cercas eletrificadas no alto dos muros e policiais armados em guaritas com ordem para atirar em quem tente sair da favela sem autorização, mas é claro que isso não será feito (pelo menos não tão explicitamente). Dará muito na vista.
Confiram o manifesto:
*O título deste post é uma paráfrase da música "São Paulo: Auschwitz Versão Brasileira", do grupo de rap Facção Central. Se quiserem escutá-la (coisa que eu recomendo), ela está no CD Direto do Campo de Extermínio.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Haiti: passado, presente e futuro
palestra Haiti from Marcio Oliveira on Vimeo.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Sobre os campos de concentração cearenses (ou "o Brasil também já foi nazista?")
domingo, 18 de abril de 2010
Vocês ainda acham que não há preconceito no Brasil?
sábado, 10 de abril de 2010
Considerações sobre a teimosia humana (ou quem não ouve "cuidado" ouve "coitado")
Na madrugada de hoje, um acidente aéreo na região de Smolensk (a 400km a oeste de Moscou), matou o presidente da Polônia, Lech Kaczynski, a esposa dele, o presidente do Banco Central polonês e os mais altos oficiais militares poloneses (ao todo, foram 97 mortos). Todos estavam indo à Rússia a fim de prestar uma homenagem a soldados poloneses que foram assassinados pelo exército soviético em 1940 (familiares dos poloneses mortos na guerra também estavam no avião). Trata-se de um fato polêmico, que envolveu Rússia, Polônia e Alemanha, e que marcou o começo da Segunda Guerra Mundial.
Entretanto, o que mais me chamou a atenção no caso não foi nada isso. Fiquei mais intrigado ao saber que, de acordo com o que foi divulgado na imprensa, a tripulação do avião que transportava o presidente polonês e a sua comitiva foi advertida pelos controladores de voo russos que as condições climáticas estavam péssimas (muita neblina), e que por isso seria mais prudente desviar a rota e aterrissar em Moscou ou em Minsk, capital da Bielorrússia (ou Belarus, como dizem). O pedido foi sumariamente ignorado pela tripulação polonesa, tanto que o piloto tentou pousar no aeroporto de Smolensk quatro vezes. Tanta insistência só poderia ter dado nisso.
Ao ouvir isso, eu me perguntei por que nós somos tão teimosos; por que nós insistimos tanto em dar de ombros para algum alerta ou aviso que as outras pessoas nos fazem. Não estou dizendo que nós devemos acreditar em tudo o que ouvirmos por aí, mas, nesse caso específico, custava escutar as recomendações dos russos e pousar em um lugar mais seguro? Custava ser mais prudente e preservar as vidas humanas que estavam dentro do avião (e a vida da tripulação também, pois ninguém conseguiu escapar vivo desse desastre)? Gente sacana, escrota e que gosta de tirar sarro da cara dos outros existe em qualquer lugar, mas eu me recuso a acreditar que os controladores de voo russos brincariam com um assunto tão sério como esse - ainda mais tratando-se de uma comitiva liderada por um chefe de estado.
Isso me lembrou do caso Gabriel Buchmann (se uma coisa tem algo a ver com a outra, eu não sei, mas foi a associação que eu fiz), aquele carioca que estava viajando o mundo inteiro com vistas a acumular conhecimento necessário para escrever a sua tese de doutorado sobre a pobreza e acabou morrendo no Monte Mulanje, no Malawi, ano passado. Guardadas as devidas proporções, Buchmann fez a mesma coisa que a tripulação polonesa fez hoje. Vejam: ele estava num lugar que não conhecia, subiu no monte sem pedir a autorização dos espíritos (os malawianos acreditam que o Monte Mulanje é habitado por espíritos, e por isso todos aqueles que querem subir o morro precisam pedir autorização a eles para entrar; os que não fizeram isso estão lá até hoje), e ainda teve a pachorra de dispensar o guia, após este ter avisado insistentemente que o dia estava ficando escuro e que portanto era mais prudente retornar à base e deixar a escalada para o dia seguinte. Como ele se recusou a fazer isso (talvez por ter pensado que todos esses costumes não passavam de "crendices atrasadas" ou por ter achado que tinha experiência suficiente para superar qualquer adversidade natural), terminou se perdendo e morrendo de frio enquanto dormia.
sábado, 20 de março de 2010
"Emancipate yourselves from mental slavery. None but ourselves can free our minds".
Ontem, estava navegando pela internet quando vi uma reportagem sobre um amistoso que o Santos fará pela inauguração do estádio do Red Bull, Estados Unidos. Na matéria, havia um vídeo com os jogadores Robinho e Neymar convidando, em inglês, o público estadunidense a comparecer ao estádio. Detalhe: Robinho, apesar de ter morado durante dois anos na Inglaterra, falava inglês com extrema dificuldade e Neymar limitou-se somente a repetir a frase "I love you, America" várias vezes durante a gravação.
Fui à seção de comentários a fim de saber o que as pessoas haviam dito sobre o fato (de certa forma, eu já previa o que encontraria lá). Houve de tudo: gente dizendo que Robinho era idiota metido a palhaço, que ele era analfabeto, que era absurdo uma pessoa morar dois anos na Inglaterra e falar um inglês de merda daquele, dentre outras bobagens.
Pouco me interessa definir se Robinho é palhaço ou idiota (ou as duas coisas juntas). Acho que o tempo que Robinho passou na Inglaterra foi suficiente para ele adquirir uma certa desenvoltura no idioma, mas não é isso que eu quero discutir aqui. Eu quero saber que obrigação ele tem de falar inglês. Acredito que nenhum dos dois tem obrigação de falar língua estrangeira nenhuma. Muita gente achou ruim quando Robinho disse que não dá importância ao fato de não saber falar bem o idioma de Shakespeare, e que está interessado mesmo em jogar futebol e fazer gols. Porra, ele está certo! Robinho não tem obrigação e Neymar tem menos ainda, pois ele nunca saiu daqui.
Quando eu ouço essas coisas, eu fico pensando: se o jogo acontecesse aqui no Brasil, os brasileiros encheriam a paciência dos gringos para o fato de eles não saberem falar a nossa língua? Então por que raios um brasileiro têm de saber falar a língua deles? Afinal de contas, Robinho e Neymar irão aos Estados Unidos para jogar uma partida de futebol ou dar uma palestra em Harvard? Vão para o inferno, rebanho de colonizados!! Quando um estadunidense vem ao Brasil, ele pouco se importa com o fato de não saber falar português (e ninguém faz deboche com isso). Eles falam a língua deles e nós que nos fodamos para arranjar um tradutor. Se é assim, nós temos de fazer a mesma coisa: ir ao país deles e falar a nossa língua. Se eles quiserem entender o que nós estamos falando, eles que arranjem tradutor também. O nome disso é princípio da reciprocidade.
Não estou dizendo que nós, brasileiros, não devemos dominar uma ou mais línguas estrangeiras. Muito pelo contrário. Devemos, sim, até porque o domínio do inglês, do francês, do espanhol, do alemão, do italiano e outras são critérios de poder aqui no nosso país. Os branquinhos de classe média conseguem mais bolsas de intercâmbio do que nós porque sabem falar vários idiomas, coisa que nós, devido à educação pública precária e as nossas dificuldades financeiras, não sabemos. Além disso, passamos a ter acesso a conhecimentos mais variados quando lemos e conversamos em outras línguas.
Eu só quero que nós nos libertemos desse famigerado colonialismo mental. Em outras palavras, se nós somos obrigados a falar inglês para entrar nos Estados Unidos, nós também devemos exigir que os estadunidense aprendam português para entrar no Brasil. Podem dizer o que quiserem a meu respeito, mas só quem já saiu do país sabe do que eu estou falando. Eu já saí (passei quatro meses nos EUA), e portanto sei muito bem como o pessoal de lá vê aqueles que não falam bem o inglês.
Só seremos respeitados quando soubermos valorizar mais o que é nosso – o que não significa desprezar tudo o que vem de fora, é claro.