sábado, 22 de agosto de 2009
Um desabafo.
Depois que inventaram celular com mp3, eu nunca mais viajei em paz num ônibus coletivo.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
O "jeitinho" inglês (ou o Brasil não é uma maravilha, mas também não é a lata de lixo do mundo).
Liguei o computador hoje a fim de escrever sobre outra coisa, mas mudei de ideia ao ver uma reportagem na página do UOL. Vi um vídeo sobre o caso das duas mulheres inglesas que foram presas no Rio de Janeiro acusadas de tentar aplicar um golpe conhecido como golpe do seguro. Foi assim: após terem chegado ao Brasil e se hospedado no hotel, elas foram a uma delegacia de polícia e disseram que foram roubadas, e que o ladrão havia levado toda a bagagem delas, tudo isso para receber o dinheiro do seguro. Entretanto, os policiais desconfiaram e resolveram ir ao hotel onde elas estavam hospedadas e constataram que se tratava de um golpe, pois todas as coisas que supostamente haviam sido roubadas estavam lá. Resultado: as duas foram presas e acusadas de tentativa de estelionato (art. 171 do Código Penal Brasileiro) e comunicação de crime inexistente (art. 340).
Hoje, um mês após o crime, elas foram julgadas e condenadas a um ano e cinco meses de prisão, mas a pena poderá ser convertida em prestação de serviços à comunidade. Os passaportes das duas estão retidos pela polícia desde o dia em que as duas foram presas, mas a defesa entrou com um pedido de liberação dos dois documentos na justiça. Resta saber se elas permanecerão no Brasil para cumprir a pena caso os passaportes sejam liberados (o que vocês acham?).
O que mais me revoltou foi a reação de algumas pessoas demonstrada na seção para comentários da matéria. Algumas pessoas disseram que a pena foi “muito dura”, que “não havia necessidade de tanta rigidez”; houve um que disse que acha temerário que essas inglesas prestem serviços comunitários aqui no Brasil; “por que não se faz uma operação padrão igual a essa no Senado?” Esses foram alguns dos impropérios disparados lá.
Eu fiquei pensando cá com os meus botões: “brasileiro é muito idiota mesmo”. Quanto sentimentalismo barato! Estão com peninha? Levem-nas para as vossas casas. A justiça brasileira está corretíssima ao ter condenado essas duas golpistas. Se duas brasileiras tivessem feito isso na Inglaterra, elas já teriam sofrido o diabo nas mãos da polícia inglesa; a essa hora, estariam presas na cadeia mais imunda da Inglaterra, incomunicáveis e sofrendo todo tipo de tortura física e psicológica – isso se já não estivessem mortas, é claro.
Aliás, os brasileiros nem precisam cometer crimes para serem maltratados lá. Até onde eu sei (corrijam-me se eu estiver errado, por favor), não é necessário tirar visto para entrar na Inglaterra. É um oficial do serviço de imigração inglês que decide se nós podemos entrar no país ou não. Isso quer dizer que se eu chegar ao aeroporto de Londres e o oficial for com a minha cara, eu serei autorizado a entrar. Caso contrário, eu terei de pegar os meus paninhos de bunda e voltar para o Brasil – ainda que a minha documentação esteja toda regularizada.
Casos de abuso da polícia inglesa contra brasileiros não faltam. No momento, só me lembro de dois: uma mulher (não me lembro de onde) que passou anos juntando dinheiro para pagar um intercâmbio de curso de inglês em Londres, mas teve de voltar para o Brasil porque o policial simplesmente não foi com a cara dela, e outro de uma menina do interior da Bahia (esqueci de qual cidade) que foi fazer turismo e foi tratada pior do que um cachorro pelos policiais. A coisa foi tão grave que a menina menstruou enquanto esteve presa no cubículo onde foi posta no aeroporto e os canalhas não permitiram sequer que ela fosse ao banheiro para se limpar e trocar o absorvente. Quem souber de mais algum exemplo, que se manifeste.
Outras pessoas ficaram penalizadas pelo fato de as duas pilantrinhas de meia-pataca terem ficado presas durante seis dias na penitenciária feminina de Bangu e sido condenadas a um ano e cinco meses de cana. Oooooh, meu deus! Coitadinhas das pobrezinhas!! E o que aconteceu com Jean Charles lá no metrô de Londres, cambada, vocês já esqueceram? O cabra era inocente, não tinha nada a ver com a situação, mas levou sete tiros na cabeça em uma ação atabalhoada da Scotland Yard (considerada a melhor polícia do mundo [eu nem quero imaginar como é a pior]) só porque foi confundido com um terrorista. Bem que os policiais poderiam tê-lo prendido e averiguado os fatos, mas preferiram matá-lo para dar uma resposta rápida à sociedade inglesa, atônita com os atentados à bomba no metrô de Londres. Bem que os mais experientes dizem que memória de brasileiro é curta.
Não podemos esquecer também o caso de Ronald Biggs. Um ladrão safado, que assaltou o trem-pagador britânico em 1963, fugiu da cadeia, veio para o Brasil, rapidamente descobriu que estrangeiro que tem filho brasileiro não pode ser extraditado, e por isso emprenhou a primeira que passou pela frente dele para gozar desse benefício. Resultado: ficou aqui no Brasil durante mais de trinta anos, tirando onda de bon vivant, e só retornou à Inglaterra por livre e espontânea vontade em 2001 porque estava doente e sabia que não teria direito a tratamento médico aqui no Brasil.
Eu só espero que o caso dessas duas golpistazinhas inglesas sirva para que nós paremos de pensar e dizer por aí que gente pilantra, trambiqueira, que gosta de levar vantagem em tudo só existe aqui no Brasil; que o Brasil é o “país do jeitinho”. Gente, o “jeitinho” não é brasileiro, e sim mundial.
Hoje, um mês após o crime, elas foram julgadas e condenadas a um ano e cinco meses de prisão, mas a pena poderá ser convertida em prestação de serviços à comunidade. Os passaportes das duas estão retidos pela polícia desde o dia em que as duas foram presas, mas a defesa entrou com um pedido de liberação dos dois documentos na justiça. Resta saber se elas permanecerão no Brasil para cumprir a pena caso os passaportes sejam liberados (o que vocês acham?).
O que mais me revoltou foi a reação de algumas pessoas demonstrada na seção para comentários da matéria. Algumas pessoas disseram que a pena foi “muito dura”, que “não havia necessidade de tanta rigidez”; houve um que disse que acha temerário que essas inglesas prestem serviços comunitários aqui no Brasil; “por que não se faz uma operação padrão igual a essa no Senado?” Esses foram alguns dos impropérios disparados lá.
Eu fiquei pensando cá com os meus botões: “brasileiro é muito idiota mesmo”. Quanto sentimentalismo barato! Estão com peninha? Levem-nas para as vossas casas. A justiça brasileira está corretíssima ao ter condenado essas duas golpistas. Se duas brasileiras tivessem feito isso na Inglaterra, elas já teriam sofrido o diabo nas mãos da polícia inglesa; a essa hora, estariam presas na cadeia mais imunda da Inglaterra, incomunicáveis e sofrendo todo tipo de tortura física e psicológica – isso se já não estivessem mortas, é claro.
Aliás, os brasileiros nem precisam cometer crimes para serem maltratados lá. Até onde eu sei (corrijam-me se eu estiver errado, por favor), não é necessário tirar visto para entrar na Inglaterra. É um oficial do serviço de imigração inglês que decide se nós podemos entrar no país ou não. Isso quer dizer que se eu chegar ao aeroporto de Londres e o oficial for com a minha cara, eu serei autorizado a entrar. Caso contrário, eu terei de pegar os meus paninhos de bunda e voltar para o Brasil – ainda que a minha documentação esteja toda regularizada.
Casos de abuso da polícia inglesa contra brasileiros não faltam. No momento, só me lembro de dois: uma mulher (não me lembro de onde) que passou anos juntando dinheiro para pagar um intercâmbio de curso de inglês em Londres, mas teve de voltar para o Brasil porque o policial simplesmente não foi com a cara dela, e outro de uma menina do interior da Bahia (esqueci de qual cidade) que foi fazer turismo e foi tratada pior do que um cachorro pelos policiais. A coisa foi tão grave que a menina menstruou enquanto esteve presa no cubículo onde foi posta no aeroporto e os canalhas não permitiram sequer que ela fosse ao banheiro para se limpar e trocar o absorvente. Quem souber de mais algum exemplo, que se manifeste.
Outras pessoas ficaram penalizadas pelo fato de as duas pilantrinhas de meia-pataca terem ficado presas durante seis dias na penitenciária feminina de Bangu e sido condenadas a um ano e cinco meses de cana. Oooooh, meu deus! Coitadinhas das pobrezinhas!! E o que aconteceu com Jean Charles lá no metrô de Londres, cambada, vocês já esqueceram? O cabra era inocente, não tinha nada a ver com a situação, mas levou sete tiros na cabeça em uma ação atabalhoada da Scotland Yard (considerada a melhor polícia do mundo [eu nem quero imaginar como é a pior]) só porque foi confundido com um terrorista. Bem que os policiais poderiam tê-lo prendido e averiguado os fatos, mas preferiram matá-lo para dar uma resposta rápida à sociedade inglesa, atônita com os atentados à bomba no metrô de Londres. Bem que os mais experientes dizem que memória de brasileiro é curta.
Não podemos esquecer também o caso de Ronald Biggs. Um ladrão safado, que assaltou o trem-pagador britânico em 1963, fugiu da cadeia, veio para o Brasil, rapidamente descobriu que estrangeiro que tem filho brasileiro não pode ser extraditado, e por isso emprenhou a primeira que passou pela frente dele para gozar desse benefício. Resultado: ficou aqui no Brasil durante mais de trinta anos, tirando onda de bon vivant, e só retornou à Inglaterra por livre e espontânea vontade em 2001 porque estava doente e sabia que não teria direito a tratamento médico aqui no Brasil.
Eu só espero que o caso dessas duas golpistazinhas inglesas sirva para que nós paremos de pensar e dizer por aí que gente pilantra, trambiqueira, que gosta de levar vantagem em tudo só existe aqui no Brasil; que o Brasil é o “país do jeitinho”. Gente, o “jeitinho” não é brasileiro, e sim mundial.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Sobre as tentativas de reinclusão da Bahia no horário de verão
Todo ano é a mesma xurumela. Quando chegamos aos meses de agosto e setembro, é de praxe ver nos jornais baianos os clamores dos defensores da reinclusão da Bahia ao horário de verão. As justificativas são várias, assim como os seus autores.
De um lado, estão os empresários baianos que dizem que a permanência da Bahia fora do horário de verão traduz-se em “sérios prejuízos à economia da Bahia” (leia-se: redução dos seus lucros). Isso porque há uma hora a menos para realizar operações de câmbio; muita gente perde os voos devido à diferença de horário em relação ao horário de Brasília; as pessoas têm sempre uma hora a menos de expediente bancário, dentre outras coisas. O empresariado esperneou, gritou, deu chilique, mas felizmente não conseguiu sensibilizar o governador Jaques Wagner. Resultado: a Bahia continuará fora do horário de verão “em solidariedade aos outros estados do Nordeste”, nas palavras do governador.
Do outro, está a população (e é justamente isso que me deixa mais puto da vida). Sempre nos final de agosto e começo de setembro, as emissoras de TV baianas saem às ruas para saber a opinião do público sobre o assunto. As respostas são sempre as mesmas: “ah, eu acho que o horário de verão deveria voltar porque assim a gente não perde a novela”; “o horário de verão é bom porque a gente fica com uma hora a mais para aproveitar o sol”; “com o horário de verão é possível ficar uma hora a mais na praia tomando cerveja com os amigos”. Citarei somente esses exemplos para não ficar chato.
Eu fico mais puto ainda porque ninguém me entrevista. Sei muito bem que as emissoras de TV cortariam a minha resposta na hora de editar a fita, mas seria um grande orgasmo mental dizer o que eu penso a esses repórteres idiotas.
Ver os empresários reivindicando o retorno do horário de verão é compreensível, pois eles só estão preocupados com os seus interesses capitalistas, ou seja, eles só querem encher os seus bolsos de dinheiro e o resto que se foda. Entretanto, ver e ouvir o povão, a população, a “plebe rude” defendendo isso é de matar! Custa-me a acreditar que alguma pessoa seja capaz de dizer tamanha sandice.
O horário de verão só é bom para quem pode dar-se ao luxo de acordar às 10h e possui carro. Pois para quem mora na periferia, acorda às 5h, anda 700m até o ponto mais próximo e tem de esperar o ônibus sozinho num ponto escuro, sem segurança, rezando para que o buzu chegue antes do ladrão, adiantar o relógio em uma hora é uma desgraça. Sem contar os transtornos físicos causados: comer fora do horário que já estamos acostumados, dores de cabeça (quando a Bahia ainda estava inclusa, eu sentia fortes dores durante os três primeiros dias), distúrbios do sono... A lista de problemas é interminável.
Em suma, não vale a pena passar por tanto tormento em prol de uma economia de energia irrisória. Num país como o Brasil, existem formas muito mais inteligentes de poupar eletricidade do que adiantar o relógio em uma hora. Conter o desperdício e utilizar fontes alternativas e limpas já ajudam bastante.
De um lado, estão os empresários baianos que dizem que a permanência da Bahia fora do horário de verão traduz-se em “sérios prejuízos à economia da Bahia” (leia-se: redução dos seus lucros). Isso porque há uma hora a menos para realizar operações de câmbio; muita gente perde os voos devido à diferença de horário em relação ao horário de Brasília; as pessoas têm sempre uma hora a menos de expediente bancário, dentre outras coisas. O empresariado esperneou, gritou, deu chilique, mas felizmente não conseguiu sensibilizar o governador Jaques Wagner. Resultado: a Bahia continuará fora do horário de verão “em solidariedade aos outros estados do Nordeste”, nas palavras do governador.
Do outro, está a população (e é justamente isso que me deixa mais puto da vida). Sempre nos final de agosto e começo de setembro, as emissoras de TV baianas saem às ruas para saber a opinião do público sobre o assunto. As respostas são sempre as mesmas: “ah, eu acho que o horário de verão deveria voltar porque assim a gente não perde a novela”; “o horário de verão é bom porque a gente fica com uma hora a mais para aproveitar o sol”; “com o horário de verão é possível ficar uma hora a mais na praia tomando cerveja com os amigos”. Citarei somente esses exemplos para não ficar chato.
Eu fico mais puto ainda porque ninguém me entrevista. Sei muito bem que as emissoras de TV cortariam a minha resposta na hora de editar a fita, mas seria um grande orgasmo mental dizer o que eu penso a esses repórteres idiotas.
Ver os empresários reivindicando o retorno do horário de verão é compreensível, pois eles só estão preocupados com os seus interesses capitalistas, ou seja, eles só querem encher os seus bolsos de dinheiro e o resto que se foda. Entretanto, ver e ouvir o povão, a população, a “plebe rude” defendendo isso é de matar! Custa-me a acreditar que alguma pessoa seja capaz de dizer tamanha sandice.
O horário de verão só é bom para quem pode dar-se ao luxo de acordar às 10h e possui carro. Pois para quem mora na periferia, acorda às 5h, anda 700m até o ponto mais próximo e tem de esperar o ônibus sozinho num ponto escuro, sem segurança, rezando para que o buzu chegue antes do ladrão, adiantar o relógio em uma hora é uma desgraça. Sem contar os transtornos físicos causados: comer fora do horário que já estamos acostumados, dores de cabeça (quando a Bahia ainda estava inclusa, eu sentia fortes dores durante os três primeiros dias), distúrbios do sono... A lista de problemas é interminável.
Em suma, não vale a pena passar por tanto tormento em prol de uma economia de energia irrisória. Num país como o Brasil, existem formas muito mais inteligentes de poupar eletricidade do que adiantar o relógio em uma hora. Conter o desperdício e utilizar fontes alternativas e limpas já ajudam bastante.
sábado, 8 de agosto de 2009
Fim de semana da Stock Car em Salvador.
Neste fim de semana, Salvador se transformará na capital brasileira da velocidade. Pela primeira vez em trinta anos de história, será realizada uma etapa do campeonato brasileiro de Stock Car no Nordeste e em um circuito de rua – nas ruas do Centro Administrativo da Bahia. Como atualmente o automobilismo não goza de muito prestígio aqui na Bahia, várias ações de divulgação foram feitas para mobilizar o público: carros ficaram expostos em alguns dos principais shopping centers da cidade; pilotos deram voltas com os carros no Dique do Tororó - região do centro de Salvador; o piloto Cacá Bueno fez um pit-stop em frente ao Mercado Modelo e Elevador Lacerda; os pilotos Xandinho Negrão e William Starostik passaram uma tarde autografando bonés no Shopping Iguatemi em troca de 1kg de alimento não-perecível. Sem contar a propaganda massiva feita pela imprensa esportiva baiana desde o final do mês passado.
Reconheço que isso será muito bom para o esporte baiano. A divulgação que a cidade já recebeu – e ainda vai receber – em virtude da corrida que acontecerá amanhã será ótima. Para aqueles que estão brigando pela construção de um autódromo em Salvador, essa é uma boa oportunidade de intensificar a luta. Além disso tudo, como estamos em período de baixa estação, o evento ajudou a incrementar o turismo baiano (que está passando por uma das piores fases nos últimos vinte anos), uma vez que há uma boa quantidade de pessoas que virão a Salvador só para assistir à corrida.
Entretanto, uma coisa que eu vi nos jornais chamou bastante a minha atenção, e é a isso que eu quero dar destaque: todos os ingressos foram vendidos em 48 horas, e por isso a organização criou, no local onde acontecerá a prova, um espaço batizado de Praça dos Telões, onde as pessoas de menor poder aquisitivo (o Jornal da Metrópole desta semana usou o termo “povão”, mas eu detesto essa palavra) poderão pagar de cinco a dez reais para assistir à prova através de telões de alta resolução.
Que falta de respeito! Vejam só se eu vou pagar dez reais para ver imagem de telão!!! Imagem de telão, eu vejo em casa. Sei que isso não causará efeito prático nenhum (eu sou um só, e uma andorinha só não faz verão), mas essa é a única forma que eu tenho de protestar contra essa ideia de que os pobres têm de estar sempre relegados aos piores lugares. Percebam: a organização do evento só pensou em criar uma forma de atrair os mais desfavorecidos depois que os ingressos foram todos vendidos. Por que a organização não pensou em criar preços mais em conta em uma zona que os pobres pudessem ver os carros na pista?
Certamente aparecerá alguém dizendo que eu sou ingênuo, imbecil, metido a besta, dentre outras palavras. Digam o que quiserem. Eu só não concordo que o sofrimento, o descaso e o menosprezo são coisas naturais. Não é porque eu sou preto, pobre e periférico que eu tenho de aceitar sempre os restos e dizer que “é assim mesmo”. Como bem disse o Kortezia, “eu estou carente, mas eu quero coisa boa”.
Isso é a mesma coisa de pagar para assistir a uma apresentação de Emílio Santiago (que eu gosto muito), um espetáculo teatral ou uma apresentação do Cirque du Soleil numa fileira tão distante do palco e ter de ver o espetáculo através de telão. Se fosse para ver imagem de TV, eu compraria um DVD pirata no camelô e assistiria à apresentação em casa.
Na Stock Car, não seria diferente. Como eu não tive grana para pagar o preço dos ingressos das áreas mais nobres (até porque o preço já é colocado para selecionar o público), eu também não irei lá. Eu até tenho dez reais livre aqui no meu bolso no momento, mas ele será usado em outra coisa. Acompanharei a transmissão através do Esporte Espetacular, pois sairá bem mais barato.
P.S.: de acordo com o Jornal da Metrópole do dia 24/07 (www.jornaldametropole.com.br), o Cirque du Soleil cancelou quatro dias de apresentação aqui em Salvador (27/8, 3/9, 4/9 e 6/9). Os motivos do cancelamento até agora não foram – e eu imagino que nunca serão – divulgados, mas eu quero acreditar que foi o baixo público.
Se for isso mesmo, será bem feito. Se os preços dos ingressos fossem mais baixos, a presença de público seria bem maior e com certeza nenhum dia de apresentação seria suspenso.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Unidos venceremos - ou pelo menos incomodaremos bastante.
Essa semana, vi uma coisa que me deixou profundamente alegre. Estava navegando pela internet, e li uma nota no mínimo interessante: revoltados com os maus resultados do time, alguns torcedores do Bahia resolveram lançar a campanha Público Zero, que consiste em estimular a torcida a não comparecer ao Estádio de Pituaçu na próxima rodada, quando o Bahia enfrentará o Vasco em partida válida pela série B do Campeonato Brasileiro. Nenhuma torcida organizada do time assumiu a autoria da campanha, mas a mensagem já está se espalhando loucamente pela internet através daquelas correntes chatas (toda vez que eu recebo um email FWD, eu nem abro a mensagem).
Após ler essa nota, eu quase esporrei de tanta felicidade. Reagi dessa forma porque finalmente alguém entendeu que a melhor forma de protestar contra os maus resultados de um time de futebol é simplesmente não ir mais ao estádio, ou seja, boicotar. Gritar, balançar cédulas de dinheiro em frente às câmeras de TV, chamar os jogadores de mercenários, ameaçá-los de morte, ir ao aeroporto para tentar agredi-los, pichar os muros da sede do clube, invadir o centro de treinamento, dentre outras tantas palhaçadas, não adiantam porra nenhuma. Dirigente de clube está se lixando para isso. Quando aparece alguma torcida organizada fazendo bagunça, a primeira reação que eles têm é dizer que todos são vagabundos e marginais e chamar a polícia para prender todo mundo. Resultado: uma caralhada de gente vai em cana e tudo fica na mesma.
Lembro que em 1997, eu fui à Fonte Nova (hoje desativada) assistir a um jogo entre Bahia e Vitória. A bagunça e o descaso com o torcedor estavam demais: filas intermináveis; cambistas cobrando de cinqüenta a sessenta por cento de ágio; os ingressos de meia-entrada só eram vendidos duas horas antes da partida “para evitar ação de cambistas”, mas nem o primeiro da fila conseguia comprar as entradas... A população começou a reclamar horrores, falar mal, dizer que aquilo era um absurdo, que o torcedor não merece ser tratado daquela maneira. Depois de ter ouvido toda aquela lamentação, eu irrompi no meio da multidão e disse o seguinte: “gente, nós estamos reclamando disso tudo aqui, mas nós precisamos entender que o culpado de tudo isso não é o presidente do Bahia, o presidente do Vitória, o diretor da SUDESB, o presidente da Federação Baiana de Futebol, o presidente da CBF e muito menos o presidente da FIFA. Os verdadeiros culpados disso tudo somos nós, torcedores, que estamos aqui hoje, passando por toda essa humilhação para pagar caro para assistir a uma partida de futebol, mas na próxima rodada todos nós estaremos aqui com o rabinho entre as pernas e prontos para sermos humilhados novamente. Se nós tivéssemos um pouco mais de vergonha na cara e nos recusássemos a vir aos estádios enquanto essa situação não mudar, com certeza os dirigentes sentiriam a dor no bolso e passariam a nos tratar melhor”. Algumas pessoas gostaram do que eu falei, outras quiseram me matar, mas felizmente eu sobrevivi e hoje estou aqui, vivo para contar história.
O que estou querendo dizer com isso é que nós temos muito poder para mudar essa situação, desde que ajamos coletivamente. O boicote é um mecanismo de pressão maravilhoso; foi assim que os negros do sul dos Estados Unidos acabaram com a segregação racial no sistema de transporte coletivo. Como os brancos sempre tinham preferência, os negros se organizaram e passaram 381 dias sem viajar nos ônibus urbanos das cidades do Sul. Após esse tempo, e arrasados com os prejuízos, os empresários pressionaram o governo para pôr fim à lei que dava suporte à discriminação racial nos ônibus (Plessy v. Ferguson), e assim os pretos voltaram a viajar sem serem mais obrigados a sentar-se somente na parte de trás e a ter de dar o lugar a uma pessoa branca caso todos os lugares estivessem ocupados e o branco estivesse de pé.
Pautado nesse exemplo, nós bem que poderíamos fazer o mesmo por aqui não só para protestar contra a diretoria do Bahia ou do Vitória, mas para outras coisas mais importantes. Cajazeiras é o maior bairro da América Latina, com uma população de aproximadamente setecentas mil pessoas. Alguém já pensou o tamanho do prejuízo que os donos de empresas teriam se a população de Cajazeiras deixasse de pegar ônibus durante uma semana? Seria uma ótima forma de protestar contra o péssimo estado dos veículos em que somos obrigados a viajar diariamente, bem como contra os aumentos sucessivos e abusivos no valor da passagem. Esse é só um exemplo dos efeitos que um boicote bem organizado pode causar.
Contudo, eu tenho plena consciência de que isso não é coisa fácil de fazer. Por dois motivos: 1) muita gente vive de empregos temporários e/ou “bicos”, e por conta disso não podem se dar ao luxo de ficar uma semana sem trabalhar sob pena de não terem o que comer; 2) por mais incrível e inaceitável que possa parecer, a exploração e a desigualdade já estão naturalizadas na cabeça de muita gente, e por isso a maior parte da população acha, dentre outras coisas, que pegar ônibus lotado é normal, pois “transporte de pobre é assim mesmo; se você não quer ser empurrado, pegue táxi”. Nem todos estão dispostos a aguentar as consequências de tal rebeldia, mas fica aqui o recado.
Apesar da minha felicidade inicial, eu duvido que a torcida tricolor leve esse movimento adiante. Isso porque, após seis rodadas, o Bahia conseguiu ganhar uma partida (contra o Campinense, último colocado na série B), e seguramente muita gente está pensando que o time já está bom e que por isso deve comparecer ao estádio de novo.
Para mim, essa vitória michuruca não tem importância nenhuma. Infelizmente, o torcedor do Bahia se conforma muito com migalhas. Eu sou torcedor tricolor, mas só retornarei ao estádio quando o Bahia estiver de volta à primeira divisão. Do jeito que as coisas estão, isso vai demorar muito. Mas, e daí? Eu não estou com a menor pressa.
Eu sou torcedor exigente. Não ganho dinheiro fácil, portanto ninguém vai levar o meu dinheiro fácil.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Nós somos tão inocentes assim?
Hoje, uma coisa que me deixou bastante intrigado. Estava assistindo ao Brasil Urgente, apresentado por José Luiz Datena, e vi uma reportagem sobre um acidente ocorrido com uma van que fazia transporte escolar clandestino no Rio de Janeiro, acidente esse que causou a morte de quatro crianças. Foi um verdadeiro festival de irregularidades: a van não estava preparada para transportar crianças, não possuía a faixa amarela com a palavra "Escolar", não havia cinto de segurança para todos os passageiros, não havia uma pessoa para controlar a entrada e a saída dos estudantes, e, para completar, o motorista não tinha carteira de habilitação. Ou seja, não havia a menor possibilidade de essa história ter um final feliz.
No enterro, os pais, mães e parentes dos mortos estavam consternados e revoltados. Todas as pessoas, além de lamentar a morte das crianças, estavam xingando o motorista, dizendo que ele era "irresponsável", "assassino", que ele "merece apodrecer na cadeia", que ele "deve pagar pelo que fez". O protesto que mais chamou a minha atenção foi o de uma mulher que estava gritando a plenos pulmões que "esse motorista matou a minha filha, a minha única filha... Esse irresponsável tirou de mim a única filha que eu tinha... Eu quero justiça!!". Imagino eu que as reações das outras pessoas não foram muito diferentes.
Agora, eu quero fazer uma perguntinha cruel: ninguém viu isso? Será possível que nenhum dos pais, mães e responsáveis se preocupou em checar a qualidade do carro em que os seus filhos seriam transportados todos dias da casa para a escola e da escola para casa? Por acaso essa mulher que chamou o motorista de "irresponsável" e "assassino" foi à escola averiguar as condições do carro em que a sua filha viajaria todos os dias, isto é, saber se o carro havia sido vistoriado pelo DETRAN, se havia extintor de incêndio; ela procurou investigar se o motorista tinha carteira de habilitação?? Ela prestou atenção ao fato de o carro não possuir a faixa amarela com a palavra "Escolar"?
Não estou dando uma de advogado do diabo, mas fazendo uma análise crítica e fria da situação (ou pelo menos tentando). Fica fácil jogar a culpa em cima do motorista (não que ele não tenha a sua parcela de responsabilidade na tragédia, é claro); fica fácil pintá-lo como o "boi ladrão" da história, mas o que se pode esperar de uma situação dessa? É muito cômodo fazer vistas grossas para todos esses absurdos em nome de uma pretensa facilidade e atraídos pelos "preços mais em conta" e depois colocar o fardo em cima do motorista depois que a merda aparecer.
Várias vezes, a minha mãe disse que tinha (acho que não tem mais) vontade de trabalhar com transporte escolar depois que se aposentar. Ela disse que faria questão que a van dela fosse toda legalizada, ou seja, vistoriada pelo DETRAN, com cinto de segurança para todas as crianças, extintor de incêndio, uma pessoa para levar e trazer as crianças do carro até a porta de casa, e carteira de habilitação D, direção defensiva e o caralho. Contudo, depois de algum tempo ela se convenceu de que infelizmente poucos seriam os pais e mães que lhe contratariam para transportar os seus filhos. Afinal de contas, "fulaninho de tal também faz transporte escolar, não tem 'nenhuma dessas frescuras' no carro dele e cobra bem mais barato pelo mesmo serviço. É daqui pr'ali, não vai acontecer nada".
É por causa disso que acidentes desse tipo acontecem quase todo dia por esse brasilzão afora. Só aqui no bairro onde eu moro houve três (pelo que eu me lembro), também com vítimas fatais. Provavelmente os pais e mães dessas crianças procederam da mesma forma.
Coisas que eu não consigo entender (se é que eu conseguirei algum dia).
O trânsito de Salvador, assim como o de qualquer grande cidade brasileira, é uma bosta, e está ficando pior a cada dia que passa (daqui a pouco tempo, dono de carro em Salvador terá de pagar IPTU em vez de IPVA). Lembro-me de que há dez anos, quando nós falávamos de megacongestionamentos em Salvador pensava-se imediatamente na região do Iguatemi. Contudo (e infelizmente), não é mais assim hoje; em qualquer região de Salvador é possível ficar pelo menos meia hora parado em um engarrafamento. Quando o congestionamento acontece por motivo de uma batida, um assassinato, um deslizamento de terra, eu até consigo compreender que cheguei atrasado ou perdi um compromisso por um motivo impossível de ser previsto e consequentemente evitado. Entretanto, há coisas que eu definitivamente não consigo entender - e acho que nunca conseguirei.
Estava eu indo em direção ao subúrbio hoje à tarde para trabalhar. Como ninguém merece o trânsito da Av. San Martin, saí de casa o mais cedo que pude tanto para conseguir pegar um ônibus rumo à Av. Suburbana (que passam sempre lotados) como para fugir do engarrafamento que acontece todo fim de tarde na San Martin. Ledo engano. Para minha infelicidade, tive de perder pelo menos trinta minutos parado, em pé, dentro de um ônibus lotado e fazendo malabarismo para não esbarrar em ninguém (só não cheguei atrasado ao trabalho porque saí bastante cedo). Fiquei pensando nos prováveis motivos para aquele engarrafamento tão cedo (normalmente, os engarrafamentos acontecem com mais intensidade nessa avenida por volta das 18h): um acidente, um atropelamento, um assassinato, um caminhão que parou para fazer uma entrega...
Nada disso. Alguns funcionários da prefeitura estavam tapando buracos no asfalto. Porra!! Cinco horas da tarde?!?!?! Eu não sou engenheiro de trânsito, mas sei muito bem que obras desse tipo devem ser feitas fora do horário de pico justamente para não atrapalhar a vida das pessoas.
Será possível que a Prefeitura de Salvador não sabe disso? O trânsito de Salvador já é uma merda, e aqueles que deveriam fazer algo para melhorar a situação só fazem piorar! Até quando nós vamos aceitar isso??
Antes que alguém diga (se é que alguém lê as coisas que eu escrevo aqui), eu não estou colocando a culpa nos funcionários, pois sei que eles estavam cumprindo ordens. O problema vem de cima.
Se bem que é muita ingenuidade minha acreditar que a Prefeitura vai fazer alguma coisa para facilitar a vida dos moradores das áreas pobres de Salvador.
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