terça-feira, 20 de setembro de 2011

"E agora? Quem poderá me salvar?"


Conversa rápida que tive ontem com uma das minhas estudantes antes da aula:

Ela: Esse lugar está horrível. Violento demais. Lá em frente ao prédio onde eu moro, junta um monte de gente para usar e vender drogas todo dia a partir das 10 da noite. Por conta disso, tenho de ficar sempre atenta para não deixar os meus filhos na rua até tarde. Sei lá, pode acontecer alguma briga ou tiroteio e eles serem feridos com isso.

Eu: É verdade. Você tem de tomar muito cuidado.

Ela: É por isso que eu dificilmente assisto à sua aula. Tenho de voltar pra casa cedo.

Eu: Tranquilidade. É por uma boa causa.

Ela: E o que mais me revolta é que ninguém faz nada. Aquele pessoal faz uma zoada desgraçada todo dia, vende e consome drogas abertamente e ninguém toma uma atitude; ninguém chama a polícia.

Eu: E por que VOCÊ não chama a polícia?

Ela: Eu, não!! Tá louco?! Eu tenho três filhos pra criar. E se esses caras descobrirem que fui eu a autora da denúncia e vierem atrás de mim para se vingar?

Eu: E você já pensou na possibilidade de os seus vizinhos não terem chamado a polícia por essas mesmas razões? Você já imaginou que os seus vizinhos podem sentir o mesmo medo que você sente de denunciar o caso e sofrer retaliações por causa disso? Você já pensou que as outras pessoas que moram no mesmo prédio onde você mora também têm filhos e, consequentemente, também têm medo de morrer e deixar as suas crianças desamparadas?  

Ela: (olhou para mim, virou-se e foi embora sem dizer nada).

Impressionante como as pessoas ficam indignadas com uma determinada situação, mas sempre esperam que alguém resolva a parada por elas. É provável que ela pense que é a única pessoa do mundo que tem filhos para criar, e, portanto, não pode se expor e correr riscos desnecessários - mas os outros podem, é claro.

É o que eu sempre digo: pimenta no rabo dos outros é refresco.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"Jesus te ama, irmão"

Ontem à tarde, após um compromisso, estava voltando para casa. Quando o ônibus passou pelo Bom Juá, vi que havia um grupo de evangélicos fazendo pregação no meio da rua. Havia gente distribuindo panfletos aos transeuntes e dentro do carro (que mais parecia um trio elétrico, dada a quantidade, o tamanho e a potência das caixas de som). O pregador estava gritando e gesticulando (como sempre), fazendo de tudo para chamar a atenção das pessoas e, quem sabe, tentar trazer mais uma ovelha desgarrada para o rebanho do senhor. O buzu dentro do qual eu estava passou bem na hora em que o sujeito falou a seguinte frase:

“A IRA DO SENHOR PERMANECERÁ SOBRE AQUELES QUE REJEITAM A SALVAÇÃO”

Ao ouvir isso, pensei: para tudo! São essas as pessoas que vivem repetindo o tempo todo que deus é bom, amoroso, compassivo e misericordioso, cheio de bons sentimentos e incapaz de guardar mágoas e rancores? Então, por que deus fica irado com as pessoas que não querem ser salvas? Esses fanáticos falam a todo instante que a Bíblia diz que deus deu o livre-arbítrio para que a humanidade possa fazer as suas escolhas. Todavia, por que deus se torna implacável contra os seres humanos que tomam decisões que não condizem com os interesses dele? Se deus é tão compreensivo quanto dizem, eu acho que ele tem que aceitar qualquer decisão tomada pelos humanos (livre-arbítrio é isso – pelo menos para mim). Se ele me dotou da capacidade de decidir, eu vou tomar a decisão que eu bem entender. Se eu quiser fumar maconha, beber, estudar Direito, virar bandido, estudar física quântica, me prostituir, escalar um prédio sem equipamento de segurança ou seja lá o que mais, deus não tem nada a ver com isso. Ele deu o poder do discernimento a mim e, agora, não quer aceitar o caminho que EU escolhi para a minha vida? Só lamento. Agora, aguente!

O mais irônico disso tudo é que são essas mesmíssimas pessoas, que acreditam nesse deus vingativo, perseguidor, cruel e autoritário, que saem às ruas para distribuir folhetinho, fazer pregação nos ônibus, dizer que deus é amor (!), que jesus tem um plano na minha vida, e que para isso eu tenho de entrar em determinada igreja para receber as bênçãos dos céus e ser agraciado com a salvação. Já tive um colega de escola que só faltou colocar uma arma na minha cabeça e me obrigar a ir à igreja porque ELE achava que eu tinha de ser salvo de qualquer jeito, pois jesus havia mudado a vida dele e queria mudar a minha também – por mais que eu não quisesse isso. A minha sorte foi que o ônibus apareceu logo, e, em virtude da situação, eu pulei dentro e larguei o babaca lá falando sozinho. Nunca mais vi o desgraçado depois daquele dia (ainda bem!).

Tô fora! Cultuar um deus que ficará o tempo todo se metendo na minha vida, vigiando as minhas ações, interferindo nas minhas vontades mais subjetivas, dizendo o que eu devo ou não devo fazer e que não hesitará em acabar comigo se por acaso eu, em algum momento, não fizer o que ele quer? Nem morto! Quem vai é coelho!!!

(Se deus é capaz de fazer isso tudo porque me ama, eu nem quero imaginar o que ele faria caso me odiasse.)

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

"Você está com cara de terrorista!!!"

Sou negro, alto, corto os meus cabelos muito esporadicamente e gosto bastante da minha barba. Odeio ter de passar barbeador na cara toda semana; acho isso um saco. Por conta disso, sempre aparece um (ou uma) mala para encher a minha paciência dizendo que eu deveria tirar a barba (como se eu tivesse pedido a opinião delas acerca do meu visual), que a barba envelhece a aparência da pessoa (como se eu me preocupasse em ser jovem a vida toda), que a barba dá uma aparência de falta de higiene (apesar de eu lavar a minha barba todo dia com shampoo anticaspa e penteá-la cuidadosamente), que o homem sem barba fica mais apresentável (como se eu fizesse questão alguma de ser simpático), dentre outras coisas.

Por conta da minha barba grande, várias pessoas, conhecidas ou não, ao me verem na rua, têm reações diversas: umas pensam que eu sou mendigo, outras pensam que eu estou de mal com a vida (como se não ter barba fosse indicador de que eu estivesse radiante de felicidade), outras pensam que eu sou usuário de drogas ilícitas (claro, né, Rogério?! Quem vai imaginar que uma pessoa branquinha, loirinha e de olhos azuis, de cabelos bem tratados e barba bem aparada, bem vestida, arrumada e perfumada fuma maconha, cheira cocaína ou cachimba crack? Você também, viu?!). E, para terminar, sou constantemente associado por essas pessoas aos membros do Taliban. Frequentemente surge no meu caminho um imbecil para gritar “bin Laden”, “ô Osama!”, “terrorista!!!”. Como se os terroristas fossem só muçulmanos com longas barbas e turbantes.

Semana passada, ao chegar a um dos locais onde trabalho, uma estudante olhou para mim e disse que eu estava igual a um terrorista. Eu, ao ouvir isso, parei, respirei, contive os meus impulsos, medi bem as minhas palavras, olhei de volta para a cara dela e sentenciei:

-É verdade. Você está certa. Aquele sujeito que matou 76 pessoas lá na Noruega é parecidíssimo comigo. Quase meu irmão gêmeo, de tão semelhante a mim. Se estivéssemos um ao lado do outro, ficaria difícil distinguir quem é quem.

Quem pensaria que um homem loiro, alto, de olhos azuis, cabelos bem tratados e muitíssimo bem vestido seria um assaltante, por exemplo? NINGUÉM!!! Ladrão é só aquele sujeitinho vestido com uma camisa da Billabong, bermuda da Cyclone, sandália Kenner, boné da Adidas, batidão feito com abridor de latinha de cerveja, com um anel em cada dedo e óculos escuros da armação rosa ou verde-cana. Aí, sim, né? Tá na cara!!

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Racismo é engraçado?

Estava navegando pela internet despropositadamente quando vi no site do Instituto Geledés uma nota sobre uma acusação de racismo contra o SBT. O texto repudiava uma apresentação, feita no Programa Silvio Santos, de um humorista que atende pela alcunha de “Mulher Feijoada”, negro e presumidamente homossexual, que levou o auditório ao delírio ao contar piadas racistas do começo ao fim do seu “espetáculo”. Aquela velha postura de escravo da casa-grande que faz de tudo para agradar o senhor de engenho, incluindo aí servir de bobo-da-corte para os convidados deste.


Desnecessário dizer que eu ODIEI esse showzinho tétrico. Falo isso porque um dos instrumentos mais poderosos a serviço do racismo é justamente o humor. As piadinhas racistas têm um poder extraordinário de naturalizar o racismo na cabeça das pessoas. Afinal, tendemos a gostar e a aceitar aquilo que nos faz rir. Até já escrevi sobre isso.

É também por causa disso que o combate ao racismo se torna mais difícil, até porque toda pessoa que vai de encontro ao que é “engraçado” invariavelmente é tachada de chata, mala e mal-humorada. Porra, será possível que você não desliga nem na hora de se divertir? Logo, tudo é aceito como uma simples "brincadeira". Quem é louco de expressar seu ódio racial com afirmações veementes ao outro? Os nossos racistas dificilmente têm coragem de dizer na cara o que pensam sobre as pessoas que mais odeiam na vida. Que o diga a baiana eleita a mais bela descendente de italianos neste ano.

Toda vez que eu condeno publicamente a postura das pessoas que se utilizam do humor para veicular e reforçar estereótipos racistas, machistas e homofóbicos na mente dos outros, a reação é sempre a mesma: você está vendo coisa onde não existe, isso é coisa da sua cabeça, "é só uma piada", você não tem senso de humor, "toda piada tem uma vítima" (curioso é que as vítimas são sempre negros, gays, mulheres, gordos... Por que ninguém faz piada com homens brancos, ricos, europeus e heterossexuais?), é assim mesmo, fazer piada é o trabalho do cara... Ele vive disso, pô!
Se algum humorista fizesse, por exemplo, piada de judeu (se o humorista não fosse judeu, é claro), não faltaria gente para repudiá-lo pelo antissemitismo. Mas quando alguém rechaça piadas contra negros, essas mesmas pessoas dizem que nós estamos enchendo o saco, que nós não temos o que fazer, que nós somos paranóicos que vemos racismo em tudo, que nós somos complexados, que ninguém pode falar mais nada... Tudo é racismo, tudo é preconceito, QUE PORRA!!!

Há três anos, a Federação Israelita do Rio de Janeiro entrou na justiça para impedir que um carro alegórico da Viradouro que trazia uma suástica e uma imagem de Hitler desfilasse na Sapucaí. Não me lembro de ter visto, lido ou ouvido nenhuma declaração ofensiva contra os judeus ou tentando minimizar a tragédia e o sofrimento impostos pelo nazismo. Afinal de contas, eles estão certos; o holocausto nazista foi um dos maiores crimes da história, seis milhões de judeus foram exterminados nos campos de concentração, um absurdo!

(Como disse o poeta martinicano Aimé Césaire, os europeus, antes da ascensão do Terceiro Reich, protagonizaram inúmeras carnificinas fora da Europa tranquilamente. Quem já leu alguma coisa sobre o tráfico de escravizados sabe do que eu estou falando. Populações inteiras e culturas milenares foram aniquiladas na Ásia, na América e na África durante séculos e os europeus que ficaram lá na Europa acharam que isso era o certo, pois tratava-se de povos "atrasados" e "inferiores" que os europeus tinham a obrigação moral de "domesticar".

Quando o poeta irlandês Roger Casement denunciou as atrocidades cometidas pelo regime do rei belga Leopoldo II no Congo, que matou cerca de trinta milhões de pessoas de 1885 a 1908, ninguém levou o cara a sério. O grande arquiteto intelectual do nazismo, o médico alemão Eugen Fischer, testou a validade das suas teorias, aprendeu a construir campos de concentração e a matar pessoas na ilha de Shark, na Namíbia (tomem conhecimento disso aqui). Entretanto, ele não foi execrado por ninguém devido a isso.

Mas quando Hitler e os seus cupinchas usaram toda essa experiência acumulada em construir máquinas da morte para fazer a mesma coisa dentro da Europa, foi um absurdo. Veio a criação da ONU, a Declaração Universal dos Direitos Humanos [promulgada numa época em que os mesmos europeus ainda estavam escravizando, explorando, estuprando e exterminando gente nas colônias africanas], a Convenção de Genebra e o caralho a quatro. Tudo porque os europeus tinham de se proteger deles mesmos.

Pimenta no rabo dos outros é refresco.)

Se fosse uma entidade do movimento negro que entrasse na justiça para impedir que um carro alegórico de uma escola de samba qualquer desfilasse exibindo uma imagem de um negro sendo chibateado no tronco, essas mesmas pessoas torceriam o nariz, diriam que isso é uma bobagem, a história foi assim mesmo
(o fato serviria apenas para uma retratação dos fatos históricos que constituem a formação do país), os negros já gostam de se fazer de vítima, a escravidão já passou e que os negros não melhoram de vida porque só ficam pensando no passado ao invés de esquecê-lo, olhar para a frente, trabalhar duro e cuidar da vida. Ahhh, que saco!!

E ainda gritariam no final: "CENSURA! CENSURA! OS NEGROS QUEREM ACABAR COM A LIBERDADE ARTÍSTICA NO PAÍS!!!"

terça-feira, 12 de julho de 2011

Futebol feminino, machismo e discriminação racial: o que uma coisa tem a ver com a outra?

Como boa parte da população brasileira não sabe, está rolando a Copa do Mundo de Futebol Feminino (hã?! Copa do Mundo de Futebol Feminino?!?!! Onde?!). As partidas começaram no final do mês passado e a final acontecerá no próximo dia 17 de julho. A grande imprensa, com destaque para a Rede Globo, não está dando nenhum destaque à competição. Em ano de Copa do Mundo de futebol masculino, as emissoras de televisão, os jornais, as revistas e os anúncios publicitários começam a encher o saco desde o início do ano sobre o Brasil na Copa, o povo brasileiro tem que torcer, devemos prestigiar a pátria de chuteiras, é o Brasil, o Brasil, o Brasil... Já quando as mulheres estão em campo...

Se não fosse a Band, as poucas pessoas que ficaram sabendo disso não teriam a oportunidade de ver os jogos. Mas não poderia ser diferente, pois, afinal de contas, a Band é a única emissora brasileira que incentiva o futebol feminino no nosso país. Luciano do Valle tem os seus erros, mas é o único grande jornalista esportivo que prestigia as mulheres futebolistas e cobra maior apoio dos patrocinadores e da CBF para que elas possam ter as condições mínimas necessárias para viver do esporte.

Infelizmente, a seleção foi eliminada pelos Estados Unidos nas quartas-de-final no domingo passado. Apesar de a zagueira Daiane ter feito um gol contra logo no começo do jogo e ter perdido um pênalti, não foi por causa disso que as nossas mulheres foram desclassificadas do certame (é bom dizer isso para depois algum espírito de porco não tentar fazer com ela a mesma coisa que fizeram com o goleiro Barbosa após a derrota da seleção brasileira na final da Copa de 1950). O gol contra foi uma infelicidade, e o desperdício do pênalti foi compreensível para uma jogadora que atuou durante cento e vinte minutos e, portanto, estava fisicamente cansada e psicologicamente abalada por conta do lance infeliz no início da partida.

O maior erro foi do treinador Kleiton Lima, que armou o time errado, subaproveitou jogadoras importantes e não fez as alterações no momento certo – além, é claro, de ter escalado uma jogadora emocionalmente desestabilizada para bater um pênalti. Deixei um comentário lá no site da Band sobre isso. Se quiserem conferir, fiquem à vontade.

Entretanto, eu não quero fazer outra resenha da partida. Quero, na verdade, levantar uma discussão acerca de outros aspectos relacionados à transmissão, especialmente a forma como é vista a mulher no esporte. Pode parecer estranho, coisa de maluco que vê coisa onde não existe. Que seja! Eu fui treinado para prestar atenção aos detalhes, àquilo que a maioria das pessoas não vê (não estou me autoelogiando publicamente, mas apenas dizendo que o meu trabalho é esse. Não faço mais do que a minha obrigação). Estava eu assistindo a Brasil X Noruega, jogo realizado no dia 3 de julho, e vi e ouvi que o comentarista Neto não parava de rasgar elogios à beleza das jogadoras norueguesas. Ele não cansava de dizer que elas eram lindas, maravilhosas, como tem mulher bonita na Noruega!!! Isso começou a me incomodar um pouco, e por isso resolvi ficar mais atento. Parece até que eu estava adivinhando o que viria em seguida.

No segundo tempo, ele não aguentou. Tornou a rasgar mais e mais elogios à beleza das norueguesas e, na volta do intervalo, soltou a seguinte pérola: "se beleza ganhasse jogo, já estaria oito a zero para a Noruega".

(Curioso que nenhuma jogadora brasileira é bonita aos olhos dele. Nem Érika, a única loira do time. Ou seja, não basta ser loira para ser bonita. É preciso ser europeia ou descendente de europeus.)

No jogo seguinte, contra a Guiné Equatorial, observei com atenção máxima as palavras dele e constatei que ele não fez um comentariozinho sequer sobre a beleza das jogadoras guineenses. Por que será? Deve ser porque mulheres negras não são bonitas, não é mesmo?

Aposto que se alguém disser a ele que o comentário feito acerca das norueguesas é racista, ele jurará que não e ainda dirá que está cansado dos patrulheiros do politicamente correto. Já estou até vendo - e ouvindo: "Ihhhhh! Que saco! Será possível que eu não posso falar mais nada?! Tudo é racismo, tudo é preconceito, QUE PORRA!!!"


Para completar, ele fez a mesma coisa na partida entre Brasil e Estados Unidos. Em um determinado instante em que a goleira Hope Solo apareceu na imagem (ela foi a mais privilegiada pela geradora das imagens, é claro), o narrador Luciano do Valle falou que ela era uma goleira muito competente e habilidosa. Neto não perdeu a chance: "habilidosa E LINDA!"

Dei uma olhada nas reportagens sobre o jogo disponíveis na internet, e todas elas trouxeram na manchete "a musa Hope Solo eliminou o Brasil...", "a goleira vira musa...", "musa Hope Solo isso...", "musa Hope Solo aquilo..."

Ou seja, pouco importa se ela é competente, pouco importa se ela teve uma boa atuação na partida, pouco importa o fato de ela ter defendido duas cobranças de pênalti. Importa mesmo o fato de ela ser linda – e nada mais.

Quando os homens estão jogando, ninguém repara na beleza deles. Pouco importa se eles são bonitos ou feios, o que interessa é saber jogar e colocar a bola nas redes do adversário (quer dizer, também não é assim. Afinal de contas, quando vocês viram um jogador africano ou asiático aparecer nas listas de jogadores mais bonitos da Copa? O único brasileiro que apareceu na lista de bonitões da Copa 2010 foi Kaká. Mas Kaká é preto?). Já com relação às mulheres, a mídia só quer saber da beleza física delas. Por que isso? Elas entraram em campo para jogar futebol ou para um desfile de moda? Não sei vocês, mas eu penso que a beleza física de uma mulher é desimportante quando ela decide praticar um esporte. O que importa é competência, habilidade e preparo para obter o máximo de rendimento. Ou eu estou errado?


sábado, 2 de julho de 2011

Marcha das Vadias em Salvador – 02/07/2011

Sou militante antirracista há sete anos. Entretanto, percebi depois de um certo tempo que não basta lutar só contra o racismo por uma razão bem simples: o racismo não age sozinho. A homofobia, o preconceito de classe e o machismo, por exemplo, são ideologias tão destruidoras quanto a primeira e não agem isoladamente. Muito pelo contrário.

Eu fui criado com base em todos esses valores (e quem não foi?), e resolvi lutar contra todos eles assim que tomei consciência disso. Para tanto, resolvi ir hoje à Marcha das Vadias em Salvador. O movimento, que teve como epicentro a cidade de Toronto, no Canadá, já aconteceu em vários países e algumas capitais brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis, Brasília, Recife e Fortaleza, pelo que sei) e, aqui em Salvador, foi realizado em concomitância com as comemorações dos 188 anos da Independência do Brasil na Bahia e transcorreu com muita tranquilidade, descontração e uma forte contestação ao machismo e ao sexismo reinantes em nossa sociedade.

Várias foram as bandeiras levantadas pelas manifestantes (descriminalização do aborto, apoio à causa LGBT, repúdio à usina de Belo Monte), mas a mais enfatizada nas faixas e cartazes foi o enfrentamento à cultura do estupro. Todas as participantes fizeram questão de contestar a ideia que divide as mulheres desde cedo entre “santas” e “putas”, reivindicaram o direito inalienável de serem donas dos seus corpos e repudiaram o pensamento dominante que, ao invés de condenar o agressor, coloca sobre as vítimas a culpa por terem sofrido violência sexual – como se fosse possível alguém pedir para ser violentada, espancada, torturada e até assassinada com requintes de crueldade.

A causa é nobre, a iniciativa é louvável, os motivos são justos, mas apesar disso houve quem tentasse desqualificar os propósitos da Marcha. Em um dado momento, um babaca apareceu na janela da casa dele vestindo uma camisa vermelha com a mensagem “A minha camisa fica vermelha quando eu fico excitado” e começou a fazer deboche da cara de algumas manifestantes (que prontamente responderam ao imbecil com uma sonora vaia). Minutos depois, a minha esposa se aproximou de mim e disse que ouviu um sujeito negro, gordo, vestindo uma camisa que trazia uma imagem de uma mulher com o cabelo black power olhar para a manifestação e dizer: “isso tudo é uma tremenda baixaria”. Ou seja, o sujeito se diz (ou pelo menos aparenta ser) um ativista antirracista, mas acha que mulher tem que ficar em casa esquentando a barriga no fogão, esfriando no tanque e cuidando dos filhos.

(É óbvio que não foram todos os homens que agiram assim. Aqueles que se solidarizaram com a causa foram muito bem recebidos e tratados pelas mulheres presentes, o que mostra que esse clima de guerra dos sexos não leva a lugar algum e que as feministas não são naturalmente androfóbicas ou, como se diz atualmente, feminazis.)

Quis tirar muitas fotos, mas não tirei porque a minha máquina deu defeito. Só consegui tirar cinco. É pouco, mas foi o que eu consegui e por isso vou coletivizar convosco. Confiram abaixo:

Foto 1



Foto 2



Foto 3



Foto 4



Foto 5








terça-feira, 12 de abril de 2011

Documentário Cortina de Fumaça: proposta de um debate sério, fundamentado e sem preconceitos sobre drogas

Você é contra ou a favor das drogas? Você acha que um assunto sério como esse deve ser discutido de uma forma tão bipolar e maniqueísta, na base do "você é Bahia ou é Vitória, afro?"? Você pensa (e acredita) que a maconha é a porta de entrada para drogas mais pesadas? E que a única coisa que se pode fazer com a maconha é colocá-la para secar, enrolar as folhas secas num papel de seda, fumar e ficar doidão? Você acha que toda pessoa que consome maconha, cocaína e crack é uma criminosa de altíssima periculosidade, nociva ao convívio social?

Você toma uma cerveja todo dia no final do expediente e fuma uma carteira de cigarro, mas diz que não é viciado? E quem de fato é viciado é o seu vizinho sacizeiro? Você assiste ao Na Mira, ao Se Liga Bocão e a outros programas sensacionalistas e policialescos e só falta ter um orgasmo quando um suposto traficante aparece morto com a cara toda brocada de bala ou quando um delegado apresenta um soldadinho borra-botas de boca-de-fumo e diz que "a prisão deste meliante representou um duro golpe contra o tráfico de drogas no nosso estado"? Você acredita que esse mesmo soldadinho zé-mané é o único responsável por todo esse mar de violência em que nós vivemos só porque ele anda armado e acompanhado de mais alguns zés-manés iguais a ele?

Você acha que esses caras, que não sabem nem ler, são os que se beneficiam dos espantosos lucros que o tráfico de entorpecentes movimenta no mundo? São aqueles pretinhos favelados que abandonaram o Complexo do Alemão para não serem abatidos os que têm contas na Suíça e demais paraísos fiscais para guardar o dinheiro sujo do tráfico? Você acha que só é possível combater o tráfico de drogas com mais policiais, mais viaturas e mais armamentos? Você acha que as UPPs estão se instalando nas comunidades pobres das grandes capitais brasileiras com o único propósito de expulsar os bandidos e impedir que eles voltem? E que tudo isso visa de fato eliminar as drogas da face da terra?

Você ainda não entendeu que é o proibicionismo que causa tudo isso? Que está na hora de abrir um debate sério e amplo sobre o assunto? E que esse debate não seja mais calcado em preconceitos e ignorância? O que mais terá de acontecer para você se dar conta disso e entender que esse problema também é seu?

Bem, se você pensa dessa forma, eu recomendo que você assista a esse documentário aqui. Acredito que nunca mais você verá, ouvirá ou lerá uma reportagem, matérias de jornais e revistas ou as opiniões desses (sempre os mesmos) pseudoespecialistas que aparecem na TV falando sobre drogas da mesma forma.

Claro que eu sei que alguém poderá pensar que tudo isso não passa de uma invenção de algum desocupado, mas eu peço gentilmente que você faça um esforcinho, tente lutar contra os seus preconceitos e verdades preestabelecidas e tenha um pouco de humildade para notar que a realidade não é única e tampouco tão esquemática quanto você foi treinado e treinada para entendê-la.

Eu também sei que é muito difícil tentar explicar o que é o mundo para quem só o conhece através do Jornal Nacional e das novelas da Globo, mas eu me lançarei ao desafio. Sou brasileiro, e não desisto nunca.

Sem mais delongas, vamos ao material:

Parte 1/6


Parte 2/6


Parte 3/6


Parte 4/6


Parte 5/6


Parte 6/6