sábado, 8 de agosto de 2009

Fim de semana da Stock Car em Salvador.

Neste fim de semana, Salvador se transformará na capital brasileira da velocidade. Pela primeira vez em trinta anos de história, será realizada uma etapa do campeonato brasileiro de Stock Car no Nordeste e em um circuito de rua – nas ruas do Centro Administrativo da Bahia. Como atualmente o automobilismo não goza de muito prestígio aqui na Bahia, várias ações de divulgação foram feitas para mobilizar o público: carros ficaram expostos em alguns dos principais shopping centers da cidade; pilotos deram voltas com os carros no Dique do Tororó - região do centro de Salvador; o piloto Cacá Bueno fez um pit-stop em frente ao Mercado Modelo e Elevador Lacerda; os pilotos Xandinho Negrão e William Starostik passaram uma tarde autografando bonés no Shopping Iguatemi em troca de 1kg de alimento não-perecível. Sem contar a propaganda massiva feita pela imprensa esportiva baiana desde o final do mês passado.

Reconheço que isso será muito bom para o esporte baiano. A divulgação que a cidade já recebeu – e ainda vai receber – em virtude da corrida que acontecerá amanhã será ótima. Para aqueles que estão brigando pela construção de um autódromo em Salvador, essa é uma boa oportunidade de intensificar a luta. Além disso tudo, como estamos em período de baixa estação, o evento ajudou a incrementar o turismo baiano (que está passando por uma das piores fases nos últimos vinte anos), uma vez que há uma boa quantidade de pessoas que virão a Salvador só para assistir à corrida.

Entretanto, uma coisa que eu vi nos jornais chamou bastante a minha atenção, e é a isso que eu quero dar destaque: todos os ingressos foram vendidos em 48 horas, e por isso a organização criou, no local onde acontecerá a prova, um espaço batizado de Praça dos Telões, onde as pessoas de menor poder aquisitivo (o Jornal da Metrópole desta semana usou o termo “povão”, mas eu detesto essa palavra) poderão pagar de cinco a dez reais para assistir à prova através de telões de alta resolução.

Que falta de respeito! Vejam só se eu vou pagar dez reais para ver imagem de telão!!! Imagem de telão, eu vejo em casa. Sei que isso não causará efeito prático nenhum (eu sou um só, e uma andorinha só não faz verão), mas essa é a única forma que eu tenho de protestar contra essa ideia de que os pobres têm de estar sempre relegados aos piores lugares. Percebam: a organização do evento só pensou em criar uma forma de atrair os mais desfavorecidos depois que os ingressos foram todos vendidos. Por que a organização não pensou em criar preços mais em conta em uma zona que os pobres pudessem ver os carros na pista?

Certamente aparecerá alguém dizendo que eu sou ingênuo, imbecil, metido a besta, dentre outras palavras. Digam o que quiserem. Eu só não concordo que o sofrimento, o descaso e o menosprezo são coisas naturais. Não é porque eu sou preto, pobre e periférico que eu tenho de aceitar sempre os restos e dizer que “é assim mesmo”. Como bem disse o Kortezia, “eu estou carente, mas eu quero coisa boa”.

Isso é a mesma coisa de pagar para assistir a uma apresentação de Emílio Santiago (que eu gosto muito), um espetáculo teatral ou uma apresentação do Cirque du Soleil numa fileira tão distante do palco e ter de ver o espetáculo através de telão. Se fosse para ver imagem de TV, eu compraria um DVD pirata no camelô e assistiria à apresentação em casa.

Na Stock Car, não seria diferente. Como eu não tive grana para pagar o preço dos ingressos das áreas mais nobres (até porque o preço já é colocado para selecionar o público), eu também não irei lá. Eu até tenho dez reais livre aqui no meu bolso no momento, mas ele será usado em outra coisa. Acompanharei a transmissão através do Esporte Espetacular, pois sairá bem mais barato.

P.S.: de acordo com o Jornal da Metrópole do dia 24/07 (www.jornaldametropole.com.br), o Cirque du Soleil cancelou quatro dias de apresentação aqui em Salvador (27/8, 3/9, 4/9 e 6/9). Os motivos do cancelamento até agora não foram – e eu imagino que nunca serão – divulgados, mas eu quero acreditar que foi o baixo público.

Se for isso mesmo, será bem feito. Se os preços dos ingressos fossem mais baixos, a presença de público seria bem maior e com certeza nenhum dia de apresentação seria suspenso.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Unidos venceremos - ou pelo menos incomodaremos bastante.

Essa semana, vi uma coisa que me deixou profundamente alegre. Estava navegando pela internet, e li uma nota no mínimo interessante: revoltados com os maus resultados do time, alguns torcedores do Bahia resolveram lançar a campanha Público Zero, que consiste em estimular a torcida a não comparecer ao Estádio de Pituaçu na próxima rodada, quando o Bahia enfrentará o Vasco em partida válida pela série B do Campeonato Brasileiro. Nenhuma torcida organizada do time assumiu a autoria da campanha, mas a mensagem já está se espalhando loucamente pela internet através daquelas correntes chatas (toda vez que eu recebo um email FWD, eu nem abro a mensagem).

Após ler essa nota, eu quase esporrei de tanta felicidade. Reagi dessa forma porque finalmente alguém entendeu que a melhor forma de protestar contra os maus resultados de um time de futebol é simplesmente não ir mais ao estádio, ou seja, boicotar. Gritar, balançar cédulas de dinheiro em frente às câmeras de TV, chamar os jogadores de mercenários, ameaçá-los de morte, ir ao aeroporto para tentar agredi-los, pichar os muros da sede do clube, invadir o centro de treinamento, dentre outras tantas palhaçadas, não adiantam porra nenhuma. Dirigente de clube está se lixando para isso. Quando aparece alguma torcida organizada fazendo bagunça, a primeira reação que eles têm é dizer que todos são vagabundos e marginais e chamar a polícia para prender todo mundo. Resultado: uma caralhada de gente vai em cana e tudo fica na mesma.

Lembro que em 1997, eu fui à Fonte Nova (hoje desativada) assistir a um jogo entre Bahia e Vitória. A bagunça e o descaso com o torcedor estavam demais: filas intermináveis; cambistas cobrando de cinqüenta a sessenta por cento de ágio; os ingressos de meia-entrada só eram vendidos duas horas antes da partida “para evitar ação de cambistas”, mas nem o primeiro da fila conseguia comprar as entradas... A população começou a reclamar horrores, falar mal, dizer que aquilo era um absurdo, que o torcedor não merece ser tratado daquela maneira. Depois de ter ouvido toda aquela lamentação, eu irrompi no meio da multidão e disse o seguinte: “gente, nós estamos reclamando disso tudo aqui, mas nós precisamos entender que o culpado de tudo isso não é o presidente do Bahia, o presidente do Vitória, o diretor da SUDESB, o presidente da Federação Baiana de Futebol, o presidente da CBF e muito menos o presidente da FIFA. Os verdadeiros culpados disso tudo somos nós, torcedores, que estamos aqui hoje, passando por toda essa humilhação para pagar caro para assistir a uma partida de futebol, mas na próxima rodada todos nós estaremos aqui com o rabinho entre as pernas e prontos para sermos humilhados novamente. Se nós tivéssemos um pouco mais de vergonha na cara e nos recusássemos a vir aos estádios enquanto essa situação não mudar, com certeza os dirigentes sentiriam a dor no bolso e passariam a nos tratar melhor”. Algumas pessoas gostaram do que eu falei, outras quiseram me matar, mas felizmente eu sobrevivi e hoje estou aqui, vivo para contar história.

O que estou querendo dizer com isso é que nós temos muito poder para mudar essa situação, desde que ajamos coletivamente. O boicote é um mecanismo de pressão maravilhoso; foi assim que os negros do sul dos Estados Unidos acabaram com a segregação racial no sistema de transporte coletivo. Como os brancos sempre tinham preferência, os negros se organizaram e passaram 381 dias sem viajar nos ônibus urbanos das cidades do Sul. Após esse tempo, e arrasados com os prejuízos, os empresários pressionaram o governo para pôr fim à lei que dava suporte à discriminação racial nos ônibus (Plessy v. Ferguson), e assim os pretos voltaram a viajar sem serem mais obrigados a sentar-se somente na parte de trás e a ter de dar o lugar a uma pessoa branca caso todos os lugares estivessem ocupados e o branco estivesse de pé.

Pautado nesse exemplo, nós bem que poderíamos fazer o mesmo por aqui não só para protestar contra a diretoria do Bahia ou do Vitória, mas para outras coisas mais importantes. Cajazeiras é o maior bairro da América Latina, com uma população de aproximadamente setecentas mil pessoas. Alguém já pensou o tamanho do prejuízo que os donos de empresas teriam se a população de Cajazeiras deixasse de pegar ônibus durante uma semana? Seria uma ótima forma de protestar contra o péssimo estado dos veículos em que somos obrigados a viajar diariamente, bem como contra os aumentos sucessivos e abusivos no valor da passagem. Esse é só um exemplo dos efeitos que um boicote bem organizado pode causar.

Contudo, eu tenho plena consciência de que isso não é coisa fácil de fazer. Por dois motivos: 1) muita gente vive de empregos temporários e/ou “bicos”, e por conta disso não podem se dar ao luxo de ficar uma semana sem trabalhar sob pena de não terem o que comer; 2) por mais incrível e inaceitável que possa parecer, a exploração e a desigualdade já estão naturalizadas na cabeça de muita gente, e por isso a maior parte da população acha, dentre outras coisas, que pegar ônibus lotado é normal, pois “transporte de pobre é assim mesmo; se você não quer ser empurrado, pegue táxi”. Nem todos estão dispostos a aguentar as consequências de tal rebeldia, mas fica aqui o recado.

Apesar da minha felicidade inicial, eu duvido que a torcida tricolor leve esse movimento adiante. Isso porque, após seis rodadas, o Bahia conseguiu ganhar uma partida (contra o Campinense, último colocado na série B), e seguramente muita gente está pensando que o time já está bom e que por isso deve comparecer ao estádio de novo.

Para mim, essa vitória michuruca não tem importância nenhuma. Infelizmente, o torcedor do Bahia se conforma muito com migalhas. Eu sou torcedor tricolor, mas só retornarei ao estádio quando o Bahia estiver de volta à primeira divisão. Do jeito que as coisas estão, isso vai demorar muito. Mas, e daí? Eu não estou com a menor pressa.

Eu sou torcedor exigente. Não ganho dinheiro fácil, portanto ninguém vai levar o meu dinheiro fácil.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Nós somos tão inocentes assim?

Hoje, uma coisa que me deixou bastante intrigado. Estava assistindo ao Brasil Urgente, apresentado por José Luiz Datena, e vi uma reportagem sobre um acidente ocorrido com uma van que fazia transporte escolar clandestino no Rio de Janeiro, acidente esse que causou a morte de quatro crianças. Foi um verdadeiro festival de irregularidades: a van não estava preparada para transportar crianças, não possuía a faixa amarela com a palavra "Escolar", não havia cinto de segurança para todos os passageiros, não havia uma pessoa para controlar a entrada e a saída dos estudantes, e, para completar, o motorista não tinha carteira de habilitação. Ou seja, não havia a menor possibilidade de essa história ter um final feliz.

No enterro, os pais, mães e parentes dos mortos estavam consternados e revoltados. Todas as pessoas, além de lamentar a morte das crianças, estavam xingando o motorista, dizendo que ele era "irresponsável", "assassino", que ele "merece apodrecer na cadeia", que ele "deve pagar pelo que fez". O protesto que mais chamou a minha atenção foi o de uma mulher que estava gritando a plenos pulmões que "esse motorista matou a minha filha, a minha única filha... Esse irresponsável tirou de mim a única filha que eu tinha... Eu quero justiça!!". Imagino eu que as reações das outras pessoas não foram muito diferentes.

Agora, eu quero fazer uma perguntinha cruel: ninguém viu isso? Será possível que nenhum dos pais, mães e responsáveis se preocupou em checar a qualidade do carro em que os seus filhos seriam transportados todos dias da casa para a escola e da escola para casa? Por acaso essa mulher que chamou o motorista de "irresponsável" e "assassino" foi à escola averiguar as condições do carro em que a sua filha viajaria todos os dias, isto é, saber se o carro havia sido vistoriado pelo DETRAN, se havia extintor de incêndio; ela procurou investigar se o motorista tinha carteira de habilitação?? Ela prestou atenção ao fato de o carro não possuir a faixa amarela com a palavra "Escolar"?

Não estou dando uma de advogado do diabo, mas fazendo uma análise crítica e fria da situação (ou pelo menos tentando). Fica fácil jogar a culpa em cima do motorista (não que ele não tenha a sua parcela de responsabilidade na tragédia, é claro); fica fácil pintá-lo como o "boi ladrão" da história, mas o que se pode esperar de uma situação dessa? É muito cômodo fazer vistas grossas para todos esses absurdos em nome de uma pretensa facilidade e atraídos pelos "preços mais em conta" e depois colocar o fardo em cima do motorista depois que a merda aparecer.

Várias vezes, a minha mãe disse que tinha (acho que não tem mais) vontade de trabalhar com transporte escolar depois que se aposentar. Ela disse que faria questão que a van dela fosse toda legalizada, ou seja, vistoriada pelo DETRAN, com cinto de segurança para todas as crianças, extintor de incêndio, uma pessoa para levar e trazer as crianças do carro até a porta de casa, e carteira de habilitação D, direção defensiva e o caralho. Contudo, depois de algum tempo ela se convenceu de que infelizmente poucos seriam os pais e mães que lhe contratariam para transportar os seus filhos. Afinal de contas, "fulaninho de tal também faz transporte escolar, não tem 'nenhuma dessas frescuras' no carro dele e cobra bem mais barato pelo mesmo serviço. É daqui pr'ali, não vai acontecer nada".

É por causa disso que acidentes desse tipo acontecem quase todo dia por esse brasilzão afora. Só aqui no bairro onde eu moro houve três (pelo que eu me lembro), também com vítimas fatais. Provavelmente os pais e mães dessas crianças procederam da mesma forma.

Coisas que eu não consigo entender (se é que eu conseguirei algum dia).

O trânsito de Salvador, assim como o de qualquer grande cidade brasileira, é uma bosta, e está ficando pior a cada dia que passa (daqui a pouco tempo, dono de carro em Salvador terá de pagar IPTU em vez de IPVA). Lembro-me de que há dez anos, quando nós falávamos de megacongestionamentos em Salvador pensava-se imediatamente na região do Iguatemi. Contudo (e infelizmente), não é mais assim hoje; em qualquer região de Salvador é possível ficar pelo menos meia hora parado em um engarrafamento. Quando o congestionamento acontece por motivo de uma batida, um assassinato, um deslizamento de terra, eu até consigo compreender que cheguei atrasado ou perdi um compromisso por um motivo impossível de ser previsto e consequentemente evitado. Entretanto, há coisas que eu definitivamente não consigo entender - e acho que nunca conseguirei.

Estava eu indo em direção ao subúrbio hoje à tarde para trabalhar. Como ninguém merece o trânsito da Av. San Martin, saí de casa o mais cedo que pude tanto para conseguir pegar um ônibus rumo à Av. Suburbana (que passam sempre lotados) como para fugir do engarrafamento que acontece todo fim de tarde na San Martin. Ledo engano. Para minha infelicidade, tive de perder pelo menos trinta minutos parado, em pé, dentro de um ônibus lotado e fazendo malabarismo para não esbarrar em ninguém (só não cheguei atrasado ao trabalho porque saí bastante cedo). Fiquei pensando nos prováveis motivos para aquele engarrafamento tão cedo (normalmente, os engarrafamentos acontecem com mais intensidade nessa avenida por volta das 18h): um acidente, um atropelamento, um assassinato, um caminhão que parou para fazer uma entrega...

Nada disso. Alguns funcionários da prefeitura estavam tapando buracos no asfalto. Porra!! Cinco horas da tarde?!?!?! Eu não sou engenheiro de trânsito, mas sei muito bem que obras desse tipo devem ser feitas fora do horário de pico justamente para não atrapalhar a vida das pessoas.

Será possível que a Prefeitura de Salvador não sabe disso? O trânsito de Salvador já é uma merda, e aqueles que deveriam fazer algo para melhorar a situação só fazem piorar! Até quando nós vamos aceitar isso??

Antes que alguém diga (se é que alguém lê as coisas que eu escrevo aqui), eu não estou colocando a culpa nos funcionários, pois sei que eles estavam cumprindo ordens. O problema vem de cima.

Se bem que é muita ingenuidade minha acreditar que a Prefeitura vai fazer alguma coisa para facilitar a vida dos moradores das áreas pobres de Salvador.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Proibição aos cursinhos pré-vestibulares no Rio de Janeiro

Vi esse texto na internet, li, achei interessante e por isso pedi a autorização do autor para colocá-lo aqui no meu blog. Apesar de o texto tratar da realidade específica do Rio de Janeiro, acredito que nós devemos conhecer o que se passa por lá, uma vez que aqui em Salvador a realidade dos cursinhos comunitários não é muito diferente - guardadas as devidas proporções, é claro.


Proibição aos Pré-Vestibulares continua...


Em outubro de 2006, o ex-prefeito Cesar Maia, de maneira triste e lamentável, proibiu que os pré-vestibulares comunitários utilizassem os espaços das Escolas Públicas Municipais para as suas aulas. Esse projeto funcionava há cerca de dez anos nessas escolas e tinha por objetivo criar condições para que os alunos pobres ingressassem na Universidade. Algo bonito e importante até porque, infelizmente, a educação pública, particularmente no Rio de Janeiro, é de péssima qualidade em função da total ausência do Estado em priorizá-la em suas ações governamentais. Professores desvalorizados e mal-remunerados, espaços públicos sucateados e a ausência de um política educacional são marcas, há muito tempo, da política pública carioca nessa área.

Na época da proibição, havia mais de 140 núcleos só na capital carioca e um histórico de aproximadamente 30 mil alunos oriundos desses projetos estudando em Universidades. Depois de diversas reuniões e tentativas de diálogo durante o ano de 2007, o ex-prefeito insistiu nessa absurda atitude alegando “falta de recursos orçamentários para manter as escolas abertas nos finais de semana para essas iniciativas comunitárias”. Porém, o verdadeiro motivo da proibição é que esses projetos voluntários ensinavam, além das matérias básicas do vestibular, tais como física, matemática e português, uma disciplina chamada “Cultura e Cidadania” onde eram trabalhados – através do método de Paulo Freire intitulado Pedagogia do Oprimido – assuntos como noções de cidadania, direito constitucional, voto consciente e organização popular.

Evidentemente que esse tipo de formação não interessa aos maus políticos, pois ele forma jovens pensantes e conscientes em nossa sociedade.

No segundo turno das eleições do ano passado, o Senhor Eduardo Paes prometeu reabrir as escolas públicas municipais a esses projetos. Porém, infelizmente, até agora isso não aconteceu apesar de todas as tentativas de diálogo estabelecidas esse ano com o atual Prefeito.
Acreditamos que o futuro seja construído por atitudes concretas no presente, principalmente quando se fala em educação. Nós apelamos, através desse artigo, para a sensibilidade do atual Prefeito, o Sr. Eduardo Paes. Estamos imbuídos do mais republicano espírito de solidariedade social. Não queremos que o atual Prefeito nos faça nenhum favor. Queremos apenas que ele, o Sr. Eduardo Paes, se não puder ajudar, pelo menos, não continue com a política lamentável de criminalização da pobreza feita pelo seu antecessor que, infelizmente, atrapalha, e muito, a construção do futuro que queremos para a nossa cidade. É sempre bom lembrar que só há pré-vestibulares comunitários porque o Estado é incapaz de promover uma Educação Pública de qualidade.

Investir em educação não é favor, mas obrigação de qualquer homem público que tenha o mínimo de responsabilidade na construção de um modelo de sociedade que tenha o bem comum como princípio fundamental.

Robson Campos Leite - www.robsonleite.com.br
Robson Campos Leite é Professor de Cultura e Cidadania do PVNC (Pré Vestibular para Negros e Carentes) e primeiro suplente de Vereador do Partido dos Trabalhadores - Rio de Janeiro

domingo, 19 de abril de 2009

O Aprendiz

O que eu vou relatar aqui pode parecer um pouco atrasado (depois da internet, nove dias parecem noventa anos), mas o conteúdo do texto é mais atual do que nunca.

Assisti ao episódio de estreia do Aprendiz 6 - Universitário, exibido no dia 9 de abril, comandado por Roberto Justus. Para minha surpresa, dentre os "aprendizes" havia duas pessoas fenotipicamente pretas: Guilherme, estudante de Comunicação, de São Paulo, e Mariana, estudante de Ciência da Computação, do Rio de Janeiro.

Era possível perceber na cara dos demais (todos brancos de classe média-alta) que eles não estavam contentes com a presença de Guilherme entre eles. Saquei logo de cara que o pessoal não desperdiçaria a primeira oportunidade de fritá-lo. Uma das participantes, de nome Stephanie Paris, foi a que mais demonstrou insatisfação com Guilherme, e por isso fez de tudo para que ele fosse chutado para fora do programa.

Como se não bastasse esses fatores, o cabra ainda deu todos os vacilos possíveis: não demonstrou empenho nas provas, estava visivelmente desconcentrado (tanto que esqueceu de fazer um pagamento importante), escreveu uma palavra errada por não dominar bem o inglês (ao invés de escrever "lounge" ele escreveu "loundge") e para piorar a situação estava cantando e batucando dentro do carro enquanto as outras participantes (dentre elas a citada Stephanie) estavam conversando com os demais integrantes da equipe pelo telefone. E olhe que ele foi encarregado de encontrar os lugares onde a equipe fecharia negócios necessários ao cumprimento da tarefa.

O clima de complô ficou evidente na sala de reunião, na qual os representantes da equipe perdedora devem explicar os erros cometidos durante a tarefa e aquele considerado o maior responsável pelo insucesso é demitido por Justus. Todos em uníssono jogaram a responsabilidade da derrota na fraca atuação de Guilherme (como se ele tivesse sido o responsável único pelo fiasco), tanto que a líder da equipe chegou a dizer que "ele demonstrou ser totalmente dispensável para equipe". Ela foi repreendida por Justus ao dizer isso, mas no final das contas fez o que todos os membros da equipe queriam: demitiu Guilherme do programa.

Trabalho em três cursinhos pré-vestibulares comunitários aqui em Salvador (frequentado majoritariamente por estudantes pretos, pobres, periféricos e suburbanos), e portanto usei esse exemplo em sala de aula para fazer uma analogia com o momento que eles estão vivendo, na esperança de que isso lhes ajudasse a pensar sobre o que estão buscando na vida. Desnecessário dizer que isso também serve para mim, uma vez que eu não sou melhor do que ninguém; também cometo erros, e luto diariamente comigo mesmo para não repeti-los.

É notório que a universidade não é um campo vazio dos preconceitos existentes na nossa sociedade: racismo, sexismo, homofobia, dentre outros. Por conta disso, é lógico que os pretos, pobres e favelados são pessoas indesejáveis dentro do espaço universitário (vide as forças organizadas contra a implantação do sistema de cotas nas universidades brasileiras). Diante disso tudo, é importantíssimo que nós tenhamos cuidado redobrado com a nossa postura na universidade e posteriormente no mercado de trabalho.

Nada de brincadeiras fora de hora. Nada de dar vacilo perto de pessoas que estão esperando o primeiro mole nosso para nos foguetar. Não estou dizendo que nós não devemos rir, contar piada, descontrair, mas tudo tem de ser feito no local e momento adequados. Na hora de falar sério, temos de ser sérios e sobretudo respeitar os costumes de cada lugar. Deixemos o riso, a gargalhada alta, as piadas e todas as outras manifestações de descontração para quando estivermos no bar com os amigos tomando uma cerveja, mas na hora em que estivermos na sala de aula da universidade ou no ambiente de trabalho devemos esquecer isso tudo. Esses locais têm as suas regras, as suas leis e os seus códigos específicos, e nós devemos respeitá-los se quisermos permanecer lá.

Parafraseando o grande (e para mim imortal) Milton Santos, nós somos pretos, pobres, favelados, periféricos e suburbanos, e por isso temos de ter muito cuidado e atenção com o nosso comportamento (a maneira de falar, o uso de gírias, as nossas roupas, os nossos hábitos à mesa e principalmente com a nossa aparência), pois qualquer mínimo equívoco que cometermos será suficiente para justificar todos os preconceitos existentes sobre as pessoas supracitadas.

É claro que não existe relação alguma entre o tipo de cabelo e a competência profissional de uma pessoa, mas também não se pode negar que os empregadores e demais pessoas nos julgam pela aparência. Em vista disso, nem tentem procurar emprego com o cabelo cheio de tranças, com roupas "alternativas", cheio de penduricalhos no pescoço e nos braços, pois tenham certeza de que vocês serão eliminados logo de cara.

Não me interpretem mal. Também sou preto, pobre e favelado, e falo isso porque também tive de cortar o meu cabelo para procurar emprego. Fiz isso com a maior tristeza do mundo, mas sabia que escola alguma daria emprego a um professor com um cabelo á la Don King. A corda só arrebenta do lado do mais fraco, e infelizmente o lado mais fraco é o meu.